Turismo Marítimo

Lisboa - Capital Europeia do Atlântico

Que Lisboa é a única capital do continente europeu situada à beira do Oceano Atlântico é um facto. Que, do ponto de vista histórico e cultural, Lisboa sempre teve uma relação próxima com o mar também se afigura indesmentível. Que, do ponto de vista socioeconómico essa relação pode ser melhor aproveitada e potenciada do que até aqui foi, é também certo, constituindo esse um dos desafios que se apresentam a Lisboa. E, nesse campo, o turismo tem um papel a desempenhar sob várias formas: ao nível da identificação de Lisboa como marca internacional e ao nível da organização e aproveitamento de actividades que tenham o mar – e o rio Tejo – como actores.

Actualmente, a procura turística, sobretudo por destinos urbanos, caracteriza-se pela necessidade crescente de encontrar locais que lhe propiciem a obtenção de experiências únicas de contacto com a identidade própria desses mesmos locais e dos seus habitantes. Daí que destinos como Lisboa sintam neste momento a necessidade de corresponder a essa procura, afirmando os elementos que os tornam diferentes em relação aos demais e que são sinónimo de autenticidade, do despertar de emoções e de pontos de contacto com uma cultura própria.

Neste capítulo, a relação de Lisboa com o mar – e com o rio – é precisamente um desses elementos distintivos que compõem a proposta de valor de Lisboa enquanto destino turístico. Este é um dos elementos que faz parte do ADN de Lisboa e dos lisboetas e, como tal é considerado pelo turismo com um dos atributos da marca Lisboa. A relação de Lisboa com o oceano é um “argumento de venda” do destino turístico. É um dos factores que atraem o consumidor potencial a visitar Lisboa, seja qual for a sua motivação. É portanto, importante que, do ponto de vista da imagem do destino Lisboa, este elemento seja trabalhado.

Resulta portanto natural que no seu plano estratégico para o período de 2011 a 2014 – o TLx14 – o Turismo de Lisboa tenha dedicado um espaço a este tema.

A proposta de valor de Lisboa – a visão estratégica de Lisboa enquanto destino turístico – identifica oito vectores que compõem a imagem de Lisboa e que a torna distinta de qualquer outro destino:

  • Capitalidade – Lisboa é capital de Portugal, uma área cosmopolita com excelentes acessibilidades.
  • Atractividade – Lisboa é um destino com qualidade urbana e disponível a todos os tipos de orçamentos.
  • Sensações – Lisboa é um destino que apela aos sentidos, uma cidade de clima ameno para usufruir ao ar livre, com paisagens próprias e uma luminosidade especial.
  • Sofisticação e Modernidade – Lisboa é uma cidade que acompanha os tempos modernos, trendy e com um ambiente multicultural.
  • Dimensão humana – Lisboa é um local seguro, “feito de pessoas”, onde o contacto com a população é fácil, com atributos pitorescos e de boa hospitalidade.
  • Relevâncias históricas únicas – Lisboa é uma cidade antiga, cheia de história, com vário património a explorar, especialmente o do período dos Descobrimentos.
  • Diversidade de Experiências – Lisboa é uma cidade dinâmica, capaz de satisfazer uma multiplicidade de motivações de visita e de proporcionar todos os tipos de eventos.
  • Autenticidade – Lisboa é um destino com cultura e tradições próprias.

Em vários destes vectores a relação de Lisboa com o mar e com o rio Tejo, ajuda a construir esta imagem. Com efeito, a proximidade do rio e do mar, é sinónimo da capacidade de despertar as mais variadas sensações cénicas, muita da história de Lisboa foi construída da sua ligação com o mar e com o período dos Descobrimentos – o primeiro fenómeno de globalização do Mundo –, traduzida em legados patrimoniais únicos. A multiculturalidade e a autenticidade de Lisboa são devidas em grande parte a essa abertura ao mundo que a ligação ao mar propiciou e que ajudaram a construir uma cultura e uma tradição próprias. O grande significado que a gastronomia de Lisboa – e de Portugal – hoje evidencia é apenas um dos múltiplos exemplos dessa relação (o bacalhau, os pratos de peixe e marisco são considerados únicos no Mundo).

A possibilidade de utilização de recursos como o rio Tejo e a costa marítima são hoje uma mais-valia para a atracção de variadíssimos eventos, alguns deles de referência mundial.

A própria temática dos oceanos constituiu também, ela própria, a pedra de toque para a última grande operação de intervenção urbana que a cidade de Lisboa conheceu aquando da realização da Expo ’98, introduzindo na cidade novos elementos de modernidade, bem como de equipamentos e espaços de lazer (Nova FIL, Pavilhão Atlântico, Oceanário, passeio fluvial, etc.) que hoje contribuem para uma maior atractividade de Lisboa.

Embora com a importância atrás descrita, o elemento mar e rio não se esgota, naturalmente, no auxílio à construção da marca turística Lisboa. Do ponto de vista operacional, este tema goza também de tratamento no plano TLx14, constituindo inclusivamente um dos dez programas estratégicos identificados nesse documento e que se dedica ao desenvolvimento do Turismo Náutico enquanto produto.

A este propósito, nos trabalhos de elaboração do plano TLx14 foi realizada uma análise de pontos fortes, fraquezas, ameaças e oportunidades de Lisboa enquanto destino de turismo náutico: A região de Lisboa abrange uma extensa faixa marítima, que vai desde a Península de Setúbal, até ao Oeste, passando pela Costa do Estoril e ainda o estuário do Rio Tejo. Existe uma oferta de infra-estruturas e condições naturais para a prática de desportos náuticos – como o surf, a vela, a pesca desportiva, o mergulho, etc. – e para a existência de actividades marítimo-turísiticas – como os passeios de barco, etc.

No entanto, assiste-se à inadequação de algumas marinas e portos para as exigências deste produto, bem como a uma reduzida oferta de serviços adequados e de infra-estruturas complementares ao Turismo Náutico. A oferta de produtos e de actividades estruturadas para aproveitamento turístico é ainda algo incipiente. A regulamentação do sector é pouco propícia ao desenvolvimento turístico. Em termos mais específicos, algumas características próprias do rio Tejo, como sejam as correntes, a distância entre as margens, etc., têm obstado a um maior desenvolvimento de actividades marítimo-turísticas aproveitando este recurso.

Existem entretanto oportunidades para um maior desenvolvimento deste produto: As condições naturais permitem a captação de eventos internacionais de vela, por exemplo, bem como a exploração de serviços de aluguer de embarcações, da pesca desportiva, do mergulho e táxis marítimos. A captação de eventos internacionais é ela própria um tema querido ao turismo, na medida em que se trata de uma medida com importantes repercussões ao nível da notoriedade e que facilmente se estende aos vários produtos que o destino oferece, quer em consumos imediatos do próprio evento, quer na promoção turística.

Por outro lado, o estuário do rio Tejo – o maior da Europa – é um recurso que exibe um potencial considerável de exploração turística.

Importa pois, ainda antes das próprias actividades de promoção, ter em consideração aspectos de organização do produto que propiciem melhores condições de operacionalidade de todas estas possibilidades. Importa também não esquecer algumas dificuldades que podem surgir fruto da qualidade e diversidade já apresentada por destinos concorrentes (como no Mediterrâneo, por ex:) e da tendência de aumento da procura por destinos mais exóticos. Ao mesmo tempo, será de considerar também que existe uma necessidade de investimento forte na requalificação e criação de portos e marinas e algumas “debilidades naturais” da Costa Atlântica que, com alguma frequência, tornam pouco propícia a prática da navegação marítima de recreio.

Sendo assim, no seu programa 5 – Reforço da Relação de Lisboa com o Rio e o Oceano, pretende-se por em prática uma das vertentes da proposta de valor definida para Lisboa: o conceito de capital oceânica.

Neste campo, o plano propõe as seguintes acções:

- Desenvolver uma estratégia de comunicação e de promoção das potencialidades turísticas do Rio Tejo e das actividades marítimo-turísticas oferecidas pelos operadores actuais e futuros.

- Incentivar a simplificação e desburocratização do processo de certificação de navegadores, de legalização de embarcações e de licenciamento de actividades marítimo-turísticas no Rio Tejo, entre outras.

 - Assegurar e incentivar o desenvolvimento e a melhoria das infra-estruturas dedicadas à náutica de recreio, em particular o desenvolvimento de uma Estação Náutica em Algés (Estádio do Mar e marina com capacidade para embarcações acima dos 12 metros – Doca para Mega Iates), assim como o aumento da oferta de postos de amarração ao longo do rio Tejo visando a desconcentração da oferta.

- Captar e promover a realização de eventos e competições de renome internacional que projectem o destino junto dos principais mercados e segmentos alvo (ex: Volvo Ocean Race).

- Incentivar a criação de condições para a prática de desportos náuticos, quer no rio Tejo, quer na Costa Atlântica, como por exemplo a requalificação da frente ribeirinha e da orla marítima, o desenvolvimento de infra-estruturas de apoio, escolas de vela, surf, kitesurf, windsurf, etc.

- Promover o desenvolvimento de equipamentos náuticos multifuncionais, que sirvam as exigências do sector e funcionem como pólos de atracção quer para actividades marítimo-turísticas, quer para desportos náuticos.

- Promover a interligação/coordenação entre as diversas marinas e docas de recreio existentes na Região, criando um sistema articulado de marinas e docas de recreio.

No seu programa 1 – O Renascer de um Ponto de Encontro numa Praça Capital: Terreiro do Paço, preconizam-se uma série de actividades que complementem e potenciem o actual plano de recuperação da área compreendida entre o novo terminal de cruzeiros em Santa Apolónia e o Cais do Sodré, havendo aqui espaço para a inclusão de actividades náuticas. Neste programa defende-se, entre outras acções, o desenvolvimento da oferta complementar ao novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia e o desenvolvimento de actividades marítimo-turísticas, incluindo a criação de um ponto de acostagem na zona do Terreiro do Paço, junto à estação Sul-Sueste.

Após a entrada em vigor do plano TLx14, que desenvolvimentos se observaram nesta matéria?

A recente aprovação do plano estratégico para o Porto de Lisboa tornará possível a reconversão de alguns pontos da faixa ribeirinha do Tejo em locais propícios ao desejado desenvolvimento de actividades náuticas. Neste capítulo, o próprio Turismo de Lisboa, no âmbito das suas funções, tem-se pronunciado favoravelmente a um crescente número de projectos de animação marítimo-turística, que são sinal do dinamismo que inúmeros agentes privados têm evidenciado recentemente.

A revitalização do Terreiro do Paço conhece agora uma fase de devolução de numerosas áreas ribeirinhas ao usufruto público, com os arranjos da margem entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré e o projecto camarário da Ribeira das Naus.

A construção do novo terminal de cruzeiros em Santa Apolónia entra presentemente em fase decisiva do seu desenvolvimento, também movido pelo impressionante crescimento que este produto tem mantido nos anos recentes.

A prática do surf na região de Lisboa tem também conhecido um desenvolvimento muito significativo, com um apreciável nível de internacionalização possibilitado pela realização regular de eventos desportivos de renome e pela criação da Reserva Mundial de Surf na Ericeira.

A captação de eventos como a Volvo Ocean Race – cujas edições até 2018 foram já garantidas para Lisboa – ou a Tall Ships Race têm também contribuído para a afirmação de Lisboa enquanto destino náutico e com a vantagem de terem, sobretudo a primeira, possibilitado a criação de condições previamente inexistentes de recepção de embarcações na Doca de Pedrouços.

A defesa por parte do Fórum Empresarial da Economia do Mar, da criação de um pólo de conhecimento ligado ao mar, é um tema que interessa à actividade turística, ao nível do segmento das reuniões internacionais. A criação/desenvolvimento desse conceito poderá – e deverá – atrair a Lisboa especialistas e interessados internacionais que também consumirão num destino que já é de referência mundial nesse segmento.

Naturalmente, as condições de desenvolvimento do Turismo náutico em Lisboa – capital do Atlântico – são quase infinitas e muito haverá ainda por fazer, mas os passos certos foram definitivamente dados e este movimento dificilmente cessará, dada a importância estratégica que nele reside e que o impulsiona.

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Threesome