Turismo Marítimo

Terminal de Cruzeiros de Lisboa

... desembarcavam há mais de dois mil anos numa pequena enseada sob a colina proeminente do Castelo, grupos cosmopolitas de marinheiros e comerciantes originários das costas mediterrânicas e norte-africanas, para trocarem os seus produtos transformados por matérias bem mais primárias mas igualmente importantes. A entrada na estreita desembocadura do Tejo fazia-se após alguns dias de viagem e de paragens que, na cabotagem pela costa sul e sudoeste ibérica, se iam sucedendo em diversos entrepostos de troca. A chegada deveria ser impressionante pela amenidade, pela sucessão de colinas salientes, e pela extensão que após a passagem pelo estreito desaguar estuarino se depara, ao atingir o ‘mar’ interior chamado de ‘Mar da Palha’. Hoje, a entrada pela barra do Tejo é uma experiência difícil de esquecer, quando pela manhã os grandes navios de cruzeiro dobram a costa pelo farol do Bugio e descobrem subitamente a paisagem da cidade de Lisboa, que desperta sob a luz doce e nebulosa, que a bruma iluminada pelo nascente revela. A manobra lenta de inversão e acostagem permite ir observando a cidade encaixada no seu relevo colinar, e o bairro de Alfama, as suas igrejas e o Castelo. A visão imediata das gruas e dos passadiços de desembarque é mediada pelas extensas alamedas de árvores que formam o parque ribeirinho do Jardim do Tabaco, na margem de Alfama.

João Gomes da Silva

arquitecto paisagista

Introdução

A criação de um novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa oferece uma oportunidade rara de repensar e questionar a relação vivencial e urbana entre a cidade de Lisboa e o rio Tejo, alvo de inúmeras propostas e posições ao longo dos séculos, consequência da importância desta relação na caracterização, natureza e desenvolvimento de uma cidade que assume a sua vocação portuária natural. A área de intervenção, prevista para a instalação do novo edifício localiza-se no troço de frente ribeirinha compreendido entre a Doca da Marinha e a Estação Ferroviária de Santa Apolónia, definido pelos limites da cidade consolidada e do rio, e pela presença de duas praças previstas no plano da Frente Tejo para esta zona da cidade, que enquadrarão os edifícios da Alfândega e do Museu Militar, respectivamente. Localizada na faixa ribeirinha entre o Cais do Sodré e Santa Apolónia, esta área é parte integrante da escassa porção de território em que a relação entre a cidade e o rio Tejo não é interrompida pela presença das linhas de caminho-de-ferro, o que lhe confere um potencial excepcional de ligação entre o rio e a cidade histórica, nomeadamente com os bairros de Alfama, Mouraria, Castelo e Baixa Pombalina.

Esta zona da cidade, à semelhança de grande parte dos terrenos ribeirinhos, foi conquistada ao rio através de aterros sucessivos. O primeiro grande aterro data ainda do século XV, durante o reinado de D.Manuel I, e permitiu à cidade a formalização de grandes espaços urbanos como o Terreiro do Paço, antes com uma configuração mais longitudinal, e a Ribeira das Naus. Apesar da crescente importância do porto de Lisboa, principalmente a partir dos Descobrimentos, no séc. XVI, as suas instalações permaneceram insuficientes até ao século XIX, quando grandes porções de território foram conquistadas ao rio, em parte por motivos de salubridade e higiene, de que é exemplo o Aterro da Boavista, permitindo grandes obras no porto (1887), instalação de linhas ferroviárias e criação de avenidas como a Av. 24 de Julho. Já nos anos 40 e 60 do século XX, dão-se novos avanços sobre o Tejo, criando espaços de grande dimensão para actividades portuárias. Estes aterros desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento e definição da fisionomia da cidade, tendo possibilitado a instalação de vias de comunicação, grandes avenidas marginais, construção de necessárias instalações portuárias, criação de novos núcleos urbanos e equipamentos culturais. Criaram ainda, através dos muros de pedra calcária que os contêm, uma espécie de soco ou embasamento pétreo que parece suportar toda a cidade sobre o plano de água do estuário e, simultaneamente, instalaram uma planura marginal que acentua, na transição para a topografia natural, os anteriores limites da cidade.

O edifício do novo Terminal de Cruzeiros vai assim dispor de uma localização privilegiada e central no contexto da cidade, permitindo o acesso fácil e rápido aos locais de maior interesse turístico e cultural por parte dos visitantes, relacionando-se directamente com os edifícios mais notáveis da zona.

Esta é então uma oportunidade de requalificação do espaço urbano e da sua integração com outros espaços públicos ribeirinhos, recentemente reabilitados e a reabilitar (como é o caso do conjunto Campo das Cebolas/Doca da Marinha), numa perspectiva de conjunto, lançando temas e princípios que possam vir a recuperar a proximidade perdida entre a cidade e o rio.

Do enquadramento urbanístico e paisagístico

A proposta de um edifício volumetricamente compacto permite libertar o espaço envolvente, reclamando-o para o uso público, oferecendo à cidade e aos bairros adjacentes um espaço ajardinado de referência, com capacidade de comportar diferentes usos e actividades, que simultaneamente envolve e enquadra o Terminal de Cruzeiros de Lisboa.

A escala contida do edifício permite aproximá-lo de uma escala urbana, enquanto o espaço liberto garante a distância necessária para contemplação da encosta de Alfama, marcada pelo skyline do Mosteiro de São Vicente de Fora e do Panteão Nacional, que se formaliza como um anfiteatro em torno desta área de porto, topograficamente plana.

Desta forma, a relação visual do rio para a cidade ganha tanta importância como a da cidade para o rio, encontrando-se o conjunto de parque e edifício nesta transição, coexistindo numa situação em que cada um cria condições e motivo para a potenciação do outro.

Este espaço público envolvente assume um carácter de grande parque ribeirinho, evocando as propostas de boulevards feitas ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, por Carlos Mardel, Thomé de Gamond, Miguel Pais, Fialho de Almeida, Miguel Ventura Terra e diversas comissões criadas para conceberem planos gerais de melhoramento da frente ribeirinha lisboeta. Com variações ao nível da sua extensão ou largura, a proposta de um grande boulevard ribeirinho foi recorrente, reclamando o carácter de grande passeio público marginal, caracterizado pela presença de árvores de grande porte, e que percorreria toda a frente ribeirinha da cidade, unificando os seus espaços urbanos de referência.

Neste contexto, enquanto o edifício surge como uma resposta programática eficaz aos navios, o parque assume-se como uma resposta à cidade, fazendo a mediação entre o centro histórico e o rio, funcionando simultaneamente como porta de Lisboa. Associada a esta dualidade, o conjunto detém um carácter multifuncional, podendo ser apropriado pela cidade para diversas actividades e eventos, uma alternativa à sazonalidade da ocupação do terminal. O facto da utilização deste edifício ser previsivelmente de curta duração e muito concentrada em alturas do dia e épocas do ano, levou a pensar-se uma solução que permitisse uma versatilidade do uso do espaço, tanto interior como exterior, de forma a poder acolher eventos como exposições, ciclos de moda e cinema, concertos, feiras e mercados, ou outras actividades da cidade, fora dos picos de utilização própria do Terminal.

Um dos pontos fundamentais da proposta é a conservação da estrutura da doca existente, exaltando a sua memória através da manutenção do seu espaço vazio e da recuperação dos muros de pedra existentes em todo o seu perímetro, muros que recortam neste aterro mais recente o embasamento pétreo da cidade. Neste contexto, a doca assume um papel central, como elemento gerador da geometria da proposta e organizador do espaço e do programa.

O parque organiza-se então como um eco da doca, definido por elementos que se dispõem paralelamente aos seus limites longitudinais, como as longas fileiras de árvores ou passeios. A solução encontrada para a acomodação dos transportes procura ser simples e flexível, recorrendo a longas faixas pavimentadas, destinadas aos autocarros e táxis que servirão o Terminal, integradas no parque, recusando o carácter rodoviário no desenho e definição do espaço. Assim, quando os veículos não estão presentes, tem-se uma percepção de passeios largos e extensos, um espaço fundamentalmente vocacionado para o peão.

O facto da silhueta do cais e do encontro com a cidade, limites longitudinais da área de intervenção, apresentarem ligeiras inflexões, origina um espaço de alargamento no qual o edifício assume uma posição central, implantando-se fisicamente a meio da doca, dominando e organizando o espaço em seu redor. Esta posição permite-lhe fazer a mediação entre realidades distintas em presença, delimitando diferentes espaços. Além de fazer a separação entre o parque e o porto, o edifício do Terminal concretiza a Sudoeste a praça de ingresso e a Nordeste o parque de estacionamento requerido programaticamente, que se apropria directamente da doca. Este espaço é ensombrado e dissimulado pelo plano vegetal das copas das árvores, integrando-o no parque proposto, garantindo todas as condições de segurança e conforto desejadas para esta função.

A praça, definida a Sul do Terminal, visa fazer o enquadramento do rio e do edifício da Alfândega, antigo Celeiro Público que dava nome ao Terreiro do Trigo, assumindo claramente um papel cénico, de representação. Ao intersectar-se com a pré-existência da doca, cria um plano de água que evoca a sua anterior utilização. A Sul é limitada por um plano relvado inclinado, que se pretende constituir como um espaço passível de apropriação e permanência, e que se contrapõe a um plano relvado análogo e simétrico que delimita o estacionamento a Norte. Estes relvados são rematados por volumes paralelos às extremidades da doca, dedicados a programas de restauração, comércio e lazer, seguindo o modelo de outras estruturas ribeirinhas já existentes, mas procurando um carácter de utilização mais permanente e diferenciado, com vários tipos de público e actividades que confiram um carácter multifuncional de vivência a estes espaços.

Na zona de intervenção, os únicos edifícios mantidos, além da construção pertencente ao Metropolitano, são os armazéns localizados a Sul, recuperados como um dos pólos de manutenção do porto, fazendo-se o controlo de acesso junto desta entrada principal do cais. Um segundo pólo requerido formaliza-se evocando a presença dos armazéns anteriormente existentes, que prolongavam os actuais armazéns do Cais do Trigo. A existência deste volume ajuda a concretizar a Praça do Museu Militar, marcando o acesso secundário ao porto.

Do edifício

O edifício preconiza uma solução simples e compacta, com uma grande racionalização do ponto de vista dos meios e sistemas utilizados, aliada a um uso do espaço flexível.

Assume perante o parque e a cidade um carácter de pavilhão, uma espécie de jangada de transbordo entre os navios e a cidade, à semelhança das pequenas embarcações que outrora estabeleciam a ligação com os barcos que ficavam ao largo.

Formalmente aparenta ser um volume flutuante, quebrado, gerando zonas de tensão e inflexões que sugerem os pontos de entrada e saída do edifício.

A sua relação com o parque é franca e directa, gerando sobreposições, fusões e interpenetrações, de que resultam uma série de espaços exteriores, de uso público. Um percurso/promenade envolve o edifício até à sua cobertura, apontando diferentes direcções, relações com a vista, e conduzindo a um grande anfiteatro exterior, uma varanda que se debruça sobre a cidade. Estes espaços são susceptíveis de serem percorridos e apropriados, independentemente do funcionamento do edifício, já que não têm qualquer relação com os espaços encerrados, que constituem uma resposta às exigências funcionais requeridas.

O Terminal é caracterizado por dois alçados longitudinais mais matéricos. Um define-se ao longo do cais, estando mais relacionado com os navios e com a sua escala, com um carácter mais encerrado e rígido. O outro acompanha o parque, reagindo à cidade, recuando, flectindo-se e elevando-se.

Os dois alçados de topo, directamente relacionados com a praça, a Sul, e com o estacionamento, assumem uma natureza mais aberta e transparente, potenciando o sentido de continuidade da vivência e do espaço, permitindo o prolongamento perceptivo da doca e do parque através do edifício.

A passadeira exterior de embarque para os navios é rigorosamente paralela ao limite do cais, materializando o limite da faixa de abastecimento do navio, o que permite uma grande racionalização da utilização dos meios mecânicos de transbordo entre os navios e a passadeira. Assume um carácter independente do edifício, parecendo estabelecer com ele ligações de natureza quase tão efémera e flexível como a daquelas que estabelece com os navios.

Descrição funcional

Ao nível da distribuição programática, nos dois pisos previstos e na relação entre os espaços funcionais, a solução adoptada segue as directrizes propostas pelo programa, potenciando a facilidade e operacionalidade de circulações, mas mantendo a possibilidade de usos diferentes para cada espaço.

É importante referir em primeiro lugar que os percursos de embarque e desembarque dos passageiros em trânsito se faz quase indepedentemente do resto do edifício, através de duas faixas de acessos exteriores localizadas em cada topo do edifício, que caracterizam fortemente estes alçados. Desta forma permite-se que nas épocas de menor tráfego, ou em períodos em que este é maioritariamente de navios em trânsito, os espaços interiores do edifício possam albergar outro tipo de usos e eventos, como exposições, feiras, desfiles de moda ou lançamentos publicitários.

O acesso principal ao edifício do Terminal de Cruzeiros de Lisboa faz-se junto ao plano de água proposto, conferindo à fachada que limita a praça da Alfândega o carácter de alçado principal. A entrada localiza-se num grande espaço coberto, com pé-direito elevado, do qual partem a escadaria de acesso ao piso superior e o percurso público que se desenvolve em torno do edifício.

O Hall de entrada desenvolve-se ao longo da fachada principal, caracterizado pelo duplo pé-direito originado pelo vazado circular, que o liga ao piso superior. A presença dos reflexos do plano de água e das rampas públicas desenham a sua relação com o exterior. Aqui encontram-se os vários serviços de acolhimento de passageiros e a zona de entrega de bagagem, em relação directa com a Polícia Marítima, Sanidade Marítima, agentes económicos e as áreas operacionais do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Este último dispõe de um acesso interior e um exterior, que partilha com os correios e o câmbio.

O Hall comunica directamente com a área de bagagens destinada ao embarque. Aqui encontram-se os mecanismos necessários para controlar a bagagem proveniente do Hall e a que chega através dos operadores, pela zona de descargas coberta adjacente a este espaço. Esta área tem ainda uma relação directa com o cais, de forma a facilitar a circulação entre o terminal e os navios, e com a área de desembarque, possibilitando uma relação directa com os operadores também no momento da chegada.

No piso superior, encontra-se a Área de Espera e check-in, com uma vasta zona de espera, uma cafetaria, lounge, uma pequena zona comercial e todos os postos necessários para efectuar o check-in, controlo de passaportes e de bagagem de mão. São oferecidas duas possibilidades distintas de acesso à passadeira de embarque exterior, diferenciando funcionalmente os percursos de passageiros em trânsito e em turnaround. Isto permite que este espaço funcione de forma autónoma, quando apenas se realize circulação de navios em trânsito. Devido à sua dimensão e formalização, este espaço detém um enorme potencial quanto à sua versatilidade de usos, sendo uma mais-valia na dinamização vivencial e cultural de um equipamento com esta importância. Este espaço relaciona-se com um pátio público, resultante da fractura no volume do edifício, que oferece vistas sobre Alfama.

O desembarque faz-se a partir da passadeira exterior junto à frente Nordeste do edifício, ou, no caso de ser um único navio em trânsito, junto ao alçado principal, directamente para a praça.

O momento de chegada dos passageiros à cidade é fortemente caracterizado pela vista panorâmica sobre Alfama e o centro histórico, e pelo plano horizontal de copas de árvore que se desenrola a um nível mais baixo, no parque e sobre o estacionamento na doca.

A partir deste ponto de chegada, pode descer-se directamente para a cidade, no caso dos passageiros em trânsito, ou aceder à Sala de Desembarque com zona de Alfândega e revisão de bagagens, directamente relacionada com a área de recolha de bagagens. Esta vasta área é marcada pelo pé-direito elevado e inclinação da cobertura, que traduz interiormente a presença do anfiteatro. É dotada de todas as áreas e mecanismos necessários para efectuar o controlo e revista de bagagens e passageiros, estando relacionada com os serviços operacionais da Administração do Porto de Lisboa. Existem ainda uma possibilidade de saída, através do Hall, e um acesso de entrada e saída de shuttles para o cais, no caso de haver uma grande afluência simultânea de navios no porto.

No nível inferior da doca, desenvolve-se uma extensa área técnica e o estacionamento, que a ocupa quase na totalidade, estando dividido em três áreas distintas. Debaixo do edifício, usufruindo de um espaço coberto e de um acesso controlado, encontram-se o estacionamento reservado para as autoridades e agentes económicos (16 lugares), e o reservado para passageiros em turnaround (64 lugares). Na zona exterior, ensombrado por árvores, encontram-se os 339 lugares destinados ao estacionamento público.

Paralelamente a esta organização eficaz e funcional do Terminal, em torno do edifício desenvolve-se o já referido percurso público, assumindo-se como uma promenade que permite a descoberta da envolvente, enquanto se percorrem os vários alçados. Materializando-se através de rampas que lhe conferem um andamento lento e contemplativo, visa tirar o máximo partido da situação excepcional de vistas sobre o rio e sobre a cidade histórica, que a localização deste edifício proporciona.

Este percurso culmina na cobertura do edifício, um deck em madeira, que ganha características de palco ou de jangada flutuante sobre as copas das árvores do parque, o único espaço que verdadeiramente se relaciona com o rio sem qualquer tipo de obstáculos, como uma praça elevada.

Este espaço, que ganha identidade com um grande anfiteatro que se flecte até ao piso inferior, poderá ser pontuado por um equipamento de apoio às diferentes actividades que aqui poderiam ter lugar. Assim, sem nunca interferir com os percursos internos ou com as actividades portuárias, estes espaços públicos aproveitam a estrutura física do edifício construído para oferecer à cidade novos espaços de permanência e vivência da frente ribeirinha, efectivamente devolvendo-lhe o espaço retirado pela implantação do edifício.

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Threesome