Turismo Marítimo

Desportos Náuticos: uma região com tradição

Banhado pelo Atlântico, o Algarve assume-se como uma região de excelência na relação com o mar. A importância da costa algarvia remonta à Era das Descobertas, por ter sido um dos principais portos de partida para os navegadores portugueses. Nesses tempos também o comércio era uma atividade muito importante na região, nomeadamente através da via maritima, na rota das especiarias que vinham das terras de África e do Oriente.

A prática de desportos náuticos na região é um dos exemplos desta ligação ao mar, tanto na sua vertente desportiva e de competição como na sua vertente do lazer e ocupação dos tempos livres.

Na década de 60 muitas foram as modalidades praticadas nas águas algarvias. A Vela, por exemplo, era uma das atividades lúdicas da “Mocidade Portuguesa”. A sua prática foi impulsionada em diversos locais no Algarve, nomeadamente em Vila Real de Santo António, Tavira, Olhão, Faro e Portimão. Também a Canoagem (em Faro e Portimão), o Remo (principalmente em Faro), o Windsurf e a Pesca Desportiva (Alto Mar e de Terra) foram modalidades a que os algarvios aderiram e continuam a praticar com regularidade. Anos mais tarde, ganharam relevo modalidades como a Natação de Mar, o Mergulho, a Pesca Submarina e a Pesca Grossa (Big Game Fishing), com a adesão de centenas de praticantes.

A Pesca Grossa foi potenciada recentemente (década de 90) pela rota dos atuns e dos peixe de bico (principalmente os espadins branco e azul), que vão desovar no Mar Mediterrâneo e que passam relativamente perto da costa algarvia. Esta modalidade desportiva desenvolveu-se através da realização de concursos desportivos, principalmente em Tavira com a realização do “Torneio de Pesca Grossa de Tavira” que teve a sua 1ª edição em 1998. Este torneio rapidamente teve uma grande adesão, passou a apurar o representante de Portugal no Torneio ROLEX IGFA Offshore Championship (campeonato mundial de pesca grossa) e serviu de exemplo para a organização de eventos similares em outros locais do Algarve.

Nos últimos anos, o Kitesurf e o Surf (principalmente na costa vicentina) foram as modalidades que ganharam maior destaque no panorama dos desportos náuticos e aos quais aderiram também muitos entusiastas.

O surgimento do associativismo desportivo, com a criação de dezenas de clubes, associações regionais e respetivas federações, aliado à criação de infraestruturas nauticas (marinas, docas de recreio, cais de atracagem, etc) contribuiram para o desenvolvimento das actividades náuticas nesta região.

O bom trabalho desenvolvido rapidamente começou a dar os seus frutos e começaram a aparecer os primeiros resultados nacionais e internacionais. Todas as modalidades já obtiveram bons resultados e poderíamos inumerar vários atletas que se evidenciaram. A titulo de exemplo, quero destacar alguns desses atletas que obtiveram de facto classificações internacionais importantes. Destaco o velejador Hugo Rocha, do Ginásio Clube Naval de Faro, que foi Medalha de Bronze na modalidade Vela, classe “470”, nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, fazendo dupla com Nuno Barreto. O Hugo Rocha sagrou-se também campeão do Mundo e da Europa, em diversas classes de Vela. Destaco também Miguel Martinho, do Clube Naval de Portimão, que foi campeão Europeu de Fórmula Windsurfing, em 2013, e Luís Niza e Paulo Batista, velejadores do Clube Náutico de Tavira, que foram Medalha de Bronze nos campeonatos da Europa de Juniores de 420, na Irlanda, em 2004. Na Pesca Submarina, Jody Lot, atleta do Portisub, foi campeão da Europa e África em 2011 e Campeão do Mundo de Pesca Submarina em 2012. De destacar ainda os atletas Rui Gomes, do Grupo Naval de Olhão, e João Cordeiro, do Sport Clube Escanchinas – Almancil, que alcançaram titulos mundiais na modalidade de pesca desportiva.

Mas não é só na vertente da competição que o recurso ao mar é explorado na nossa região. Os muitos quilometros de praias despoletaram, inevitavelmente, a promoção de eventos e atividades náuticas, fortemente relacionadas com o turismo e com a promoção economica da região.

Acontecimentos de grande projeção internacional decorreram e decorrem na costa algarvia e representam para a região um importante fator de dinamização turística e económica. São exemplos, o Torneio Internacional de Vela do Carnaval, que decorre em Vilamoura, e que assinalou em 2013 a sua 39.º edição, ou o ISAF Youth Sailing World Championship, uma das provas mais importantes do mundo para jovens velejadores, que depois de ter passado por Vilamoura em 1992, chega a Tavira já no próximo ano (12 a 19 de Julho de 2014), numa organização conjunta do Clube Nautico de Tavira e da Federação Portuguesa de Vela. Está previsto a participação de cerca de 400 velejadores de 60 paises diferentes.

Também o Grande Prémio de Portugal / Algarve F1, uma competição Mundial do calendário da União Internacional de Motonáutica, realizou-se por diversos anos consecutivos em Portimão, ou ainda os TP52 (Transpac 52) - Audi MedCup, prova do circuito náutico internacional, que se realizou igualmente em Portimão.

De destacar ainda a realização de diversas provas internacionais de pesca desportiva na região do Algarve, como por exemplo, o Campeonato do Mundo de Clubes de Pesca Desportiva de Mar/Costa, que se realizou na praia da Manta Rota em Maio de 2010.

A paixão pelos desportos náuticos e a crescente expansão de algumas modalidades, têm também levado alguns algarvios a integrarem diversas associações e federações nacionais e internacionais, bem como a formação de juizes e árbitros internacionais algarvios.

Para o desenvolvimento do desporto nautico é crucial a existência de infra-estruturas modernas e eficientes, capazes de proporcionar aos atletas condições de conforto e funcionalidade. Assim, continua a ser uma prioridade a construção de mais acessos ao mar (rampas) e de mais postos de amarração de embarcações, sobretudo no sotavento algarvio, o aparecimento de centros municipais de desportos náuticos, a criação de praias náuticas (com livre acesso de embarcações à vela, kitesurf, windsurf, surf,  canoas, kayaks...) e a criação do Centro Nautico Regional de Alto Rendimento, criando condições para o treino especifico de atletas de alta competição que participam em provas internacionais ao mais alto nivel.

Tão ou mais importante que as infra-estruturas fisicas é a definição administrativa. Atualmente, diversas entidades têm jurisdição ou influência sobre o dominio publico maritimo. Os muncipios, a CCDR Algarve, a Agência Portuguesa do Ambiente, os Parques Naturais, ou a Rede Natura 2000, são exemplos de algumas entidades que têm poder sobre as zonas maritimas, enredando numa teia burucrática e morosa qualquer iniciativa que se queira desenvolver. Interessa de uma vez por todas, dar mais poder nestas matérias aos municipios para que estes possam agir rapidamente nos territórios sob sua responsabilidade.

Numa região ladeada pelo mar, torna-se imperiosa a exploração deste valioso recurso natural, nas suas mais diversas vertentes, designadamente, na prática desportiva, lazer e turística. O seu aproveitamento irá, decerto, repercurtir-se no crescimento sustentado do Algarve. A aposta no Mar é decisiva para o desenvolvimento económico e turistico desta região, plantada a sul.

 

As Marinas do Algarve: os caminhos percorridos e o muito que falta fazer

A ligação entre o mar do Algarve e o turismo náutico teve o seu primeiro impulso organizado em 1974, com a abertura da Marina de Vilamoura. Foi necessário esperar 20 anos até surgir outra estrutura de apoio à náutica turística, em Lagos. Nos anos seguintes a rede reforçou-se e hoje em dia a região está dotada de Marinas de elevada qualidade (Vilamoura, Lagos, Portimão e Albufeira), com nível claramente acima da média Europeia. Às Marinas juntam-se os portos de recreio públicos em várias cidades, o que totaliza um total de cerca de 4.500 lugares de amarração para embarcações locais ou externas.

Em termos de qualidade, há efectivamente diferenças entre as infraestruturas privadas e públicas, com algumas excepções. Também as há no que respeita aos serviços de apoio, complementares e turísticos existentes em cada tipo de estrutura náutica. Mais, os portos de recreio públicos, pelas suas características (antiguidade, localização, preços praticados) são mais procurados pelas populações locais que habitualmente não necessitam de tantos serviços turísticos (restaurantes, bares, lojas de material náutico, etc.), de apoio (balneários, lavandaria, etc.) como os turistas que, não conhecendo a cidade ou região, beneficiam largamente da integração de vários serviços dentro, ou na proximidade, da infraestrutura náutica.

Temos, portanto, 2 tipos de estruturas náuticas, com características diferentes e necessidades diferentes de desenvolvimento, tendo em conta o seu objectivo.

Focamos agora as Marinas do Algarve que, com o seu objectivo turístico e de potenciação das actividades náuticas, a sua integração directa ou indirecta de serviços disponibilizados ao utilizador e ênfase no serviço ao cliente, têm uma acção de atracção e multiplicação de negócios, não só estritamente ligados à náutica, mas também de qualquer índole turística.

Daqui decorre que as Marinas têm um potencial enorme de se tornarem polos de desenvolvimento económico das cidades onde se integram e áreas adjacentes.

O sucesso na atracção de clientes para as Marinas e portos de recreio do Algarve tem implicações muito importantes na fixação ou incremento de actividades ligadas à náutica – estaleiros, velarias, fibra de vidro, electrónica, carbono, mecânica, seguros, estofos, carpintaria, etc..

As estatísticas apuradas em 2009 mostram que por cada posto de trabalho existente na entidade gestora da Marina são criados 4,8 postos de trabalho em empresas na envolvente, que completam os serviços oferecidos.

O valor acrescentado para a região, decorrente da procura das Marinas e portos de recreio do Algarve, atinge percentagens entre os 1,5 e os 2%, somando os efeitos directos, indirectos e induzidos, ou seja, não só os efeitos directos sobre as actividades estritamente náuticas, mas também os efeitos indirectos e secundários sobre o emprego, o rendimento e consumo das famílias, etc. (Fonte: “Perfil e Potencial Económico-Social do Turismo no Algarve”, CIITT 2009).

O facto de existir uma rede de Marinas relativamente próximas umas das outras, que permite aos utilizadores fazer percursos diários, em segurança, sem necessidade de planeamento de monta, transformou o Algarve num destino náutico seguro, e com qualidade e diversidade de oferta. Aos postos de amarração construídos somam-se alguns ancoradouros naturais distribuídos ao longo da costa Sul.

Contudo, a região mantém uma capacidade de postos de amarração bem inferior às suas concorrentes Europeias mais directas, casos de Espanha, Malta, Grécia e Turquia, e muito baixa densidade de oferta a Este do cabo de Santa Maria.

Em termos de percepção do destino náutico “Algarve” nos países emissores, nota-se ainda que falta divulgar a região, e também o país, aos mercados mais a Norte, como Alemanha, Escandinávia e Báltico.

No Reino Unido, o principal mercado emissor, e na Holanda, com uma importante percentagem de nautas nas Marinas algarvias, a divulgação acaba por ser feita boca-a-boca. Por este motivo não será tão premente quanto para as zonas da Europa anteriormente indicadas a actuação organizada e “centralizada”, através da Região de Turismo ou outra entidade que consiga coordenar e impulsionar esta divulgação, necessariamente nos mercados de origem.

Distribuição por nacionalidade nas estadias de 9 meses e superiores, em 2007

As Marinas no Algarve contribuem para esbater a sazonalidade do turismo na região, com ocupações elevadas no período entre Outubro e Maio. Além disto, laboram 365 dias por ano, garantindo continuidade de emprego directo e indirecto. As ocupações médias mensais têm uma variação na ordem dos 15 pontos entre o mês mais forte e o mês mais fraco, o que demonstra uma relativa estabilidade anual.

A região do Algarve, pela sua longa história como destino turístico Português, Europeu e mundial, possui infraestruturas turísticas abrangentes e que permitem ao visitante das Marinas ter uma experiência turística completa.

Os excelentes e numerosos hotéis, restauração de qualidade, vários campos de golfe, opções em turismo de Natureza (Ria Formosa, Parque Natural da Costa Vicentina, barrocal Algarvio, oferta cultural variada e permanente, etc.), entre outros, tornam a região um destino completo e permitem a fixação de turistas durante períodos longos, por oposição aos destinos de estritamente “Sol & Praia”.

É impossível não referir o clima excepcional que temos, e que permite aos clientes estrangeiros a utilização das embarcações durante todo o ano, o que é especialmente notório quando há vários clientes que, nos seus países originais, não podem utilizá-las devido a condições extremas, como queda de neve e formação de gelo.

No que respeita aos constrangimentos à vinda ou fixação de mais turistas náuticos no Algarve, e no país, destaca-se a complicada legislação Portuguesa para a náutica de recreio e relativa confusão sobre o que deve ser aplicado às embarcações e navegadores estrangeiros. Persiste uma nuvem de dúvida, que muitas vezes se torna suficiente para afastar os visitantes que, devido a não conseguirem ter informação concreta e precisa sobre os requisitos a cumprir, preferem escolher outro destino para evitar incorrer em multas.

Assistimos muitas vezes a casos de clientes que pedem para lhe ser dada toda a informação sobre os requisitos que têm de cumprir, porque o querem fazer para permanecer no nosso país em total legalidade. Contudo, devido a aparentemente não haver certezas ou, pelo menos, não haver divulgação da informação exacta, sucedem-se os relatos de fiscalizações pelas autoridades que resultam na disseminação de boatos sobre aplicação de multas por incumprimento de regras que só são aplicáveis às embarcações Portuguesas, obrigatoriedade de comprar uma lista de equipamento enorme, etc. Estes factos apenas contribuem para afugentar os clientes e potenciais clientes já que, da mesma maneira que a boa publicidade é feita boca-a-boca, também a má segue o mesmo canal. Em clientes de faixas etárias maioritariamente entre os 60 e os 75 anos, estas más experiências têm consequências ruinosas na destruição do esforço de divulgação e atracção que as Marinas fazem.

 Fontes:

“Estudo sobre o perfil e potencial económico-social do turismo náutico no Algarve” – CIITT, Maio 2009

 

O Porto de Cruzeiros de Portimão: a grande prioridade

A 28 de Maio de 1941, o diário lisboeta “A Voz” consagrou num número especial dedicado a Portimão, que designou como “florescente e laboriosa cidade”.

Permitam-me que transcreve aqui algumas passagens:

“Quanto ao movimento marítimo, também em 1939, entraram no porto de Portimão 302 navios com 193 744 t, 204 dos quais com propulsão mecânica.

A estatística dos restantes portos algarvios demonstra inequivocamente o dinamismo da novel cidade barlaventina. No porto de Lagos, no mesmo ano, entraram 50 navios, com 39 068 t, em Faro-Olhão 140, com 20 257 t e por fim Vila Real 210, com 175 286 t.

A nível nacional, o porto de Portimão ocupava também uma posição cimeira, o quarto lugar. Já no ano seguinte registou o segundo maior rendimento a nível nacional, só suplantado por Matosinhos.

…..

Mas o intenso movimento no porto encontrava-se condicionado face às suas difíceis condições de navegabilidade. O acesso exterior achava-se impedido “por uma barra com uma disposição natural desfavorável” e identicamente o seu interior estava “muito obstruído por grandes bancos de areia”.

As delicadas condições de navegabilidade não eram recentes e remontavam mesmo a 1815. Apesar de diversas intervenções realizadas até 1941, os resultados nem sempre foram satisfatórios, pelo que urgia uma nova e profunda intervenção.

Porém, apesar de à época já existir um projeto aprovado para as obras da barra e porto de Portimão, estas demoravam em iniciar-se, pelo que, “A Voz” considerava ser a sua execução a aspiração número um dos portimonenses.”

Esta peça é de facto uma ilustração interessante para demonstrar que nunca houve uma preocupação estratégica, visando a expansão, por parte da Administração Central em relação ao Porto de Portimão.

Não deixa de ser sintomático, que passado quase um século, as revindicações de outrora serem as revindicações de agora, no presente relacionadas com o Porto de Cruzeiros de Portimão. Recorde-se que este porto é o único porto de cruzeiros nacional que não foi alvo de qualquer investimento, ao contrário do verificado em Lisboa, com a construção do novo cais de Sta. Apolónia e brevemente do novo terminal; em Leixões, com a construção do novo cais e terminal; no Funchal, com a construção do novo terminal; nos Açores, com a construção das Portas do Mar em Ponta Delgada e do novo cais e novo terminal na Horta.

Os mais recentes dados da indústria de cruzeiros, apontam para números interessantes e que num país à beira mar, urgem olhar com outra atenção, nomeadamente se considerarmos que cada milhão investido na indústria de cruzeiros são gerados 2.42 milhões na economia.

O setor dos cruzeiros a nível internacional tem tido, nos últimos anos, um crescimento muito significativo, tendo a procura aumentado dos 11.1 milhões de passageiros, em 2002, para os 20.9 milhões, em 2012, correspondendo a um incremento de 88%. A adicionar a este crescimento, as tendências internacionais apontam para uma maior procura por novos portos, para uma diversificação de itinerários e para a necessidade de aumentar o número de portos devido à afetação de um maior número de navios de cruzeiros para a Europa e para o Mediterrâneo e à construção de novos navios, na sua maioria de grande porte. Por outro lado, de forma a reduzirem a velocidade dos seus navios e a pouparem custos nos combustíveis, as companhias de cruzeiros estão a definir itinerários com portos cada vez mais próximos para reduzir a duração da navegação.

Em Portimão, de 2007 a 2011 o número de passageiros movimentados no Porto de Portimão cresceu em cerca de 673% passando dos 5.798 passageiros para os 44.841 em 2011.

O Turismo de Cruzeiros tem impactos económicos e de promoção turística. Em termos económicos, o estudo da CLIA Europe aponta para um gasto médio de € 62 por passageiro e € 21 por membro de tripulação num porto de escala. Se considerarmos os cerca de 45.000 passageiros recebidos em 2011, em Portimão, significa que o retorno direto do Porto de Cruzeiros na economia regional ascendeu aos cerca de 2,7 milhões de euros.

Ao nível da promoção turística, verifica-se que estes milhares de visitantes tiveram oportunidade de visitar a região, conhecer a oferta turística, usufruir das diversas actividades e atracções disponíveis e poderão regressar a Portimão ou a outra cidade da região num futuro próximo para umas férias mais prolongadas. De acordo com a associação de cruzeiros norte-americana CLIA (2011), 82% dos cruzeiristas consideram os cruzeiros como uma boa forma para escolha de destinos de férias aos quais poderão regressar novamente, sendo que 35% dos cruzeiristas já regressaram a destinos visitados durante os cruzeiros.

Com este crescimento verificado no Porto de Portimão, seria caso para afirmamos a nossa satisfação, não fosse termos a perfeita consciência que a falta de acessibilidade marítima ao porto limita a entrada de navios de navios de grande porte, apesar do interesse manifestado pelas companhias de cruzeiros.

É consciente destes factos, que reivindicamos um conjunto de obras urgentes, nomeadamente a dragagem e alargamento do Canal de Navegação e Bacia de Manobra, o Prolongamento do cais de acostagem e Aquisição de Rebocador, fazendo com que o potencial de crescimento para o Porto de Portimão seja de 250.000 passageiros anuais, contribuindo para que o retorno direto do porto na economia regional possa ascender a cerca de 15 milhões de euros ao ano. Em apenas dois anos, o retorno gerado ultrapassaria o investimento efetuado.

Desperdiçar as mais-valias para a economia regional que um porto de cruzeiros ampliado e melhorado poderia trazer é ter uma visão redutora e estranguladora da economia e do turismo.

 

Lisboa - Capital Europeia do Atlântico

Que Lisboa é a única capital do continente europeu situada à beira do Oceano Atlântico é um facto. Que, do ponto de vista histórico e cultural, Lisboa sempre teve uma relação próxima com o mar também se afigura indesmentível. Que, do ponto de vista socioeconómico essa relação pode ser melhor aproveitada e potenciada do que até aqui foi, é também certo, constituindo esse um dos desafios que se apresentam a Lisboa. E, nesse campo, o turismo tem um papel a desempenhar sob várias formas: ao nível da identificação de Lisboa como marca internacional e ao nível da organização e aproveitamento de actividades que tenham o mar – e o rio Tejo – como actores.

Actualmente, a procura turística, sobretudo por destinos urbanos, caracteriza-se pela necessidade crescente de encontrar locais que lhe propiciem a obtenção de experiências únicas de contacto com a identidade própria desses mesmos locais e dos seus habitantes. Daí que destinos como Lisboa sintam neste momento a necessidade de corresponder a essa procura, afirmando os elementos que os tornam diferentes em relação aos demais e que são sinónimo de autenticidade, do despertar de emoções e de pontos de contacto com uma cultura própria.

Neste capítulo, a relação de Lisboa com o mar – e com o rio – é precisamente um desses elementos distintivos que compõem a proposta de valor de Lisboa enquanto destino turístico. Este é um dos elementos que faz parte do ADN de Lisboa e dos lisboetas e, como tal é considerado pelo turismo com um dos atributos da marca Lisboa. A relação de Lisboa com o oceano é um “argumento de venda” do destino turístico. É um dos factores que atraem o consumidor potencial a visitar Lisboa, seja qual for a sua motivação. É portanto, importante que, do ponto de vista da imagem do destino Lisboa, este elemento seja trabalhado.

Resulta portanto natural que no seu plano estratégico para o período de 2011 a 2014 – o TLx14 – o Turismo de Lisboa tenha dedicado um espaço a este tema.

A proposta de valor de Lisboa – a visão estratégica de Lisboa enquanto destino turístico – identifica oito vectores que compõem a imagem de Lisboa e que a torna distinta de qualquer outro destino:

  • Capitalidade – Lisboa é capital de Portugal, uma área cosmopolita com excelentes acessibilidades.
  • Atractividade – Lisboa é um destino com qualidade urbana e disponível a todos os tipos de orçamentos.
  • Sensações – Lisboa é um destino que apela aos sentidos, uma cidade de clima ameno para usufruir ao ar livre, com paisagens próprias e uma luminosidade especial.
  • Sofisticação e Modernidade – Lisboa é uma cidade que acompanha os tempos modernos, trendy e com um ambiente multicultural.
  • Dimensão humana – Lisboa é um local seguro, “feito de pessoas”, onde o contacto com a população é fácil, com atributos pitorescos e de boa hospitalidade.
  • Relevâncias históricas únicas – Lisboa é uma cidade antiga, cheia de história, com vário património a explorar, especialmente o do período dos Descobrimentos.
  • Diversidade de Experiências – Lisboa é uma cidade dinâmica, capaz de satisfazer uma multiplicidade de motivações de visita e de proporcionar todos os tipos de eventos.
  • Autenticidade – Lisboa é um destino com cultura e tradições próprias.

Em vários destes vectores a relação de Lisboa com o mar e com o rio Tejo, ajuda a construir esta imagem. Com efeito, a proximidade do rio e do mar, é sinónimo da capacidade de despertar as mais variadas sensações cénicas, muita da história de Lisboa foi construída da sua ligação com o mar e com o período dos Descobrimentos – o primeiro fenómeno de globalização do Mundo –, traduzida em legados patrimoniais únicos. A multiculturalidade e a autenticidade de Lisboa são devidas em grande parte a essa abertura ao mundo que a ligação ao mar propiciou e que ajudaram a construir uma cultura e uma tradição próprias. O grande significado que a gastronomia de Lisboa – e de Portugal – hoje evidencia é apenas um dos múltiplos exemplos dessa relação (o bacalhau, os pratos de peixe e marisco são considerados únicos no Mundo).

A possibilidade de utilização de recursos como o rio Tejo e a costa marítima são hoje uma mais-valia para a atracção de variadíssimos eventos, alguns deles de referência mundial.

A própria temática dos oceanos constituiu também, ela própria, a pedra de toque para a última grande operação de intervenção urbana que a cidade de Lisboa conheceu aquando da realização da Expo ’98, introduzindo na cidade novos elementos de modernidade, bem como de equipamentos e espaços de lazer (Nova FIL, Pavilhão Atlântico, Oceanário, passeio fluvial, etc.) que hoje contribuem para uma maior atractividade de Lisboa.

Embora com a importância atrás descrita, o elemento mar e rio não se esgota, naturalmente, no auxílio à construção da marca turística Lisboa. Do ponto de vista operacional, este tema goza também de tratamento no plano TLx14, constituindo inclusivamente um dos dez programas estratégicos identificados nesse documento e que se dedica ao desenvolvimento do Turismo Náutico enquanto produto.

A este propósito, nos trabalhos de elaboração do plano TLx14 foi realizada uma análise de pontos fortes, fraquezas, ameaças e oportunidades de Lisboa enquanto destino de turismo náutico: A região de Lisboa abrange uma extensa faixa marítima, que vai desde a Península de Setúbal, até ao Oeste, passando pela Costa do Estoril e ainda o estuário do Rio Tejo. Existe uma oferta de infra-estruturas e condições naturais para a prática de desportos náuticos – como o surf, a vela, a pesca desportiva, o mergulho, etc. – e para a existência de actividades marítimo-turísiticas – como os passeios de barco, etc.

No entanto, assiste-se à inadequação de algumas marinas e portos para as exigências deste produto, bem como a uma reduzida oferta de serviços adequados e de infra-estruturas complementares ao Turismo Náutico. A oferta de produtos e de actividades estruturadas para aproveitamento turístico é ainda algo incipiente. A regulamentação do sector é pouco propícia ao desenvolvimento turístico. Em termos mais específicos, algumas características próprias do rio Tejo, como sejam as correntes, a distância entre as margens, etc., têm obstado a um maior desenvolvimento de actividades marítimo-turísticas aproveitando este recurso.

Existem entretanto oportunidades para um maior desenvolvimento deste produto: As condições naturais permitem a captação de eventos internacionais de vela, por exemplo, bem como a exploração de serviços de aluguer de embarcações, da pesca desportiva, do mergulho e táxis marítimos. A captação de eventos internacionais é ela própria um tema querido ao turismo, na medida em que se trata de uma medida com importantes repercussões ao nível da notoriedade e que facilmente se estende aos vários produtos que o destino oferece, quer em consumos imediatos do próprio evento, quer na promoção turística.

Por outro lado, o estuário do rio Tejo – o maior da Europa – é um recurso que exibe um potencial considerável de exploração turística.

Importa pois, ainda antes das próprias actividades de promoção, ter em consideração aspectos de organização do produto que propiciem melhores condições de operacionalidade de todas estas possibilidades. Importa também não esquecer algumas dificuldades que podem surgir fruto da qualidade e diversidade já apresentada por destinos concorrentes (como no Mediterrâneo, por ex:) e da tendência de aumento da procura por destinos mais exóticos. Ao mesmo tempo, será de considerar também que existe uma necessidade de investimento forte na requalificação e criação de portos e marinas e algumas “debilidades naturais” da Costa Atlântica que, com alguma frequência, tornam pouco propícia a prática da navegação marítima de recreio.

Sendo assim, no seu programa 5 – Reforço da Relação de Lisboa com o Rio e o Oceano, pretende-se por em prática uma das vertentes da proposta de valor definida para Lisboa: o conceito de capital oceânica.

Neste campo, o plano propõe as seguintes acções:

- Desenvolver uma estratégia de comunicação e de promoção das potencialidades turísticas do Rio Tejo e das actividades marítimo-turísticas oferecidas pelos operadores actuais e futuros.

- Incentivar a simplificação e desburocratização do processo de certificação de navegadores, de legalização de embarcações e de licenciamento de actividades marítimo-turísticas no Rio Tejo, entre outras.

 - Assegurar e incentivar o desenvolvimento e a melhoria das infra-estruturas dedicadas à náutica de recreio, em particular o desenvolvimento de uma Estação Náutica em Algés (Estádio do Mar e marina com capacidade para embarcações acima dos 12 metros – Doca para Mega Iates), assim como o aumento da oferta de postos de amarração ao longo do rio Tejo visando a desconcentração da oferta.

- Captar e promover a realização de eventos e competições de renome internacional que projectem o destino junto dos principais mercados e segmentos alvo (ex: Volvo Ocean Race).

- Incentivar a criação de condições para a prática de desportos náuticos, quer no rio Tejo, quer na Costa Atlântica, como por exemplo a requalificação da frente ribeirinha e da orla marítima, o desenvolvimento de infra-estruturas de apoio, escolas de vela, surf, kitesurf, windsurf, etc.

- Promover o desenvolvimento de equipamentos náuticos multifuncionais, que sirvam as exigências do sector e funcionem como pólos de atracção quer para actividades marítimo-turísticas, quer para desportos náuticos.

- Promover a interligação/coordenação entre as diversas marinas e docas de recreio existentes na Região, criando um sistema articulado de marinas e docas de recreio.

No seu programa 1 – O Renascer de um Ponto de Encontro numa Praça Capital: Terreiro do Paço, preconizam-se uma série de actividades que complementem e potenciem o actual plano de recuperação da área compreendida entre o novo terminal de cruzeiros em Santa Apolónia e o Cais do Sodré, havendo aqui espaço para a inclusão de actividades náuticas. Neste programa defende-se, entre outras acções, o desenvolvimento da oferta complementar ao novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia e o desenvolvimento de actividades marítimo-turísticas, incluindo a criação de um ponto de acostagem na zona do Terreiro do Paço, junto à estação Sul-Sueste.

Após a entrada em vigor do plano TLx14, que desenvolvimentos se observaram nesta matéria?

A recente aprovação do plano estratégico para o Porto de Lisboa tornará possível a reconversão de alguns pontos da faixa ribeirinha do Tejo em locais propícios ao desejado desenvolvimento de actividades náuticas. Neste capítulo, o próprio Turismo de Lisboa, no âmbito das suas funções, tem-se pronunciado favoravelmente a um crescente número de projectos de animação marítimo-turística, que são sinal do dinamismo que inúmeros agentes privados têm evidenciado recentemente.

A revitalização do Terreiro do Paço conhece agora uma fase de devolução de numerosas áreas ribeirinhas ao usufruto público, com os arranjos da margem entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré e o projecto camarário da Ribeira das Naus.

A construção do novo terminal de cruzeiros em Santa Apolónia entra presentemente em fase decisiva do seu desenvolvimento, também movido pelo impressionante crescimento que este produto tem mantido nos anos recentes.

A prática do surf na região de Lisboa tem também conhecido um desenvolvimento muito significativo, com um apreciável nível de internacionalização possibilitado pela realização regular de eventos desportivos de renome e pela criação da Reserva Mundial de Surf na Ericeira.

A captação de eventos como a Volvo Ocean Race – cujas edições até 2018 foram já garantidas para Lisboa – ou a Tall Ships Race têm também contribuído para a afirmação de Lisboa enquanto destino náutico e com a vantagem de terem, sobretudo a primeira, possibilitado a criação de condições previamente inexistentes de recepção de embarcações na Doca de Pedrouços.

A defesa por parte do Fórum Empresarial da Economia do Mar, da criação de um pólo de conhecimento ligado ao mar, é um tema que interessa à actividade turística, ao nível do segmento das reuniões internacionais. A criação/desenvolvimento desse conceito poderá – e deverá – atrair a Lisboa especialistas e interessados internacionais que também consumirão num destino que já é de referência mundial nesse segmento.

Naturalmente, as condições de desenvolvimento do Turismo náutico em Lisboa – capital do Atlântico – são quase infinitas e muito haverá ainda por fazer, mas os passos certos foram definitivamente dados e este movimento dificilmente cessará, dada a importância estratégica que nele reside e que o impulsiona.

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