Soberania, Segurança e Defesa

Marilíngua

Do nosso mar partimos à descoberta e descobrimos. Fomos além do Bojador e suportámos a dor para nos superarmos. Em naus, caravelas, cascas de noz abalámos rumo ao infinito desconhecido, ultrapassando medos e crenças medievais, em busca de novos territórios, já que aqui no retângulo não nos podíamos expandir para além das fronteiras fixadas com Castela, uma vez que a diferença demográfica era arrasadora.

O mar nos deu o sinal de que este povo dos confins podia ter a originalidade de cumprir um destino maior que o enfado de ser apenas o rosto com que a Europa fitava o terror das grandes ondas a galgar para passar a navegar de vela desfraldada, cruzada com a simbólica de Cristo a vermelho pintada, transcendendo o mare nostrum.

A história que nos corre nas veias impele-nos outra vez ao mar e vencer através dele os grandes desafios e as dificuldades presentes a superar. Agora, é preciso olhar para o mar profundo onde riquezas por haver estão ali para recolher. Com a nota de que não podemos continuar os papalvos que fomos nos idos de seiscentos em que por aqui passavam o ouro, a prata, a pimenta que depois se transbordavam e eram contrabandeados para navios de outras nacionalidades que em nossos portos amarravam.

Nestas andanças de séculos pelo vasto mundo deixámos uma preciosa raiz que cresceu ao deus dará sem darmos conta que estávamos a criar uma nova planta que frutifica em várias nações, e que é a nossa vetusta e bela língua portuguesa em constantes mutações por cada uma das terras em que foi deixada. Mas, o étimo é o mesmo com o acréscimo de podermos ter uma ortografia comum em todo o espaço da CPLP. A língua portuguesa como instrumento de comunicação, de cultura, de saber, de produção de conhecimento científico tem um potencial económico que corresponde a cerca de 17% do nosso PIB. Uma riqueza por potenciar.

Mar e Língua, dois elementos absolutamente diferenciadores que nos podem catapultar para um futuro de esperança, e que bem podem ser os brasis da nossa modernidade.

O português é a 3.ª língua europeia mais falada e o 5.º idioma mundial. Na Internet, cerca de 82 milhões de pessoas utilizam a nossa língua todos os dias para navegar e comunicar. Os resultados divulgados pela União Internacional de Telecomunicações das Nações Unidas revelam que o português é a quinta língua mais falada em todo o mundo digital.O balanço final corresponde à evolução das 10 línguas mais utilizadas na Internet, ao longo de dez anos, entre 2000 e 2010. No ciberespaço, o português registou um crescimento de 990 %, tendo ultrapassado o árabe, o francês e o alemão. Os falantes estimados para 2010 de língua portuguesa eram de 254 milhões, correspondentes aos oito países de língua oficial portuguesa e às comunidades luso-falantes. Este universo de falantes corresponde a 3,66% da população mundial e a 3,85% do PIB mundial. Já o poder económico dos falantes de português representa 4% da riqueza mundial. As diferenças linguísticas são barreiras ao comércio equivalentes a tarifas que podem ir dos 15 aos 22%.

Com a maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia, mesmo antes da expansão a homologar pelas Nações Unidas, chegando então à décima maior ZEE do mundo, esta corresponde já hoje, grosso modo, ao território de França, havendo evidentemente um potencial enorme de mar a explorar à luz dos novos conhecimentos científicos e dos recursos a que podemos deitar mão para extrairmos o que esconde o subsolo aquático em quantidades ainda não mensuráveis, mas já muito projetadas. Parêntesis aqui para dizer que bem andou o Presidente da República na sua ida às Selvagens, reafirmando a soberania portuguesa sobre aquelas ignotas ilhas, mas que são de extrema importância para a contagem do mar a que temos direito de acordo com o Direito Internacional.

Para além da nossa posição estratégica, da existência dos portos de águas profundas, da indústria naval e das pescas, há com certeza toda a sorte de minérios e hidrocarbonetos que podem ali estar em offshore, matéria de que os cientistas se ocuparão de aprofundar e pesquisar, mas cuja investigação deve e tem de ser feita. Porém, ao contrário de antanho, os proventos devem agora ser uma bênção a distribuir por todo o povo e não um tesouro a acumular nas mãos dos mesmos de sempre. Desta feita, não devemos permitir o lançamento de um novo ultimato que constitua um novo mapa cor-de-rosa subaquático, dominado pelas potências que de aliadas e amigas só têm o nome, uma vez que os interesses falaram mais alto no passado. Salvaguardar o que é nosso por direito é um dever maior de todos os atuais e futuros governantes da nossa Pátria.

Na nova economia do mar, não nos podemos esquecer, ao nível turístico, do canhão da Nazaré, que lança ondas únicas como a de 30 metros surfada pelo McNamara mostrada ao mundo inteiro, as quais estão para Portugal como a neve dos Alpes está para a Suíça. Com todos os benefícios associados que daí se podem retirar na criação de emprego, bem como até de novas indústrias, pequenas ou grandes, com projeção local, regional, nacional e mesmo internacional.

Nos tempos de profunda crise que vivemos e em que a Europa mergulhou, é preciso cuidar daquilo que nos diferencia e faz únicos. No cotejo, por exemplo, com a Grécia, temos de ter bem presente que os falantes de português chegam aos 250 milhões de pessoas em todo o mundo e que a dimensão do nosso mar não tem paralelo com o helénico. Olhar para este aspeto de per si é fazer renascer em nós a esperança de que nem tudo está perdido e que há mais mar para navegar do que o do défice, da dívida e da austeridade.

O mar salgado não pode ser apenas lágrimas de Portugal. E na nossa língua há a harmonia que sabe ao sal da alegria. Um e outra juntos rompem com o triste fado e projetam-nos a património material da humanidade. 

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