Soberania, Segurança e Defesa

Lisboa, Capital de Ulisses e Capital do Mar

[Em Lisboa] o mar lança palhetas de ouro sobre a praia.

Muhammad al-Idrisi (1110 – 1165/1166)

Se há cidade que pode e deve ambicionar ser a Capital do Mar, essa é a cidade de Lisboa, uma das mais antigas capitais da Europa, com uma posição geográfica privilegiada que permitiu a sua ocupação desde os tempos mais remotos.

Não sendo necessário recuar ao período neolítico, referências à relação com o mar exigem-se da ocupação celta no primeiro milénio antes de Cristo e do povoado pré-romano de Olissipo, local de acostagem do tráfego marítimo que proporcionou intensas trocas comerciais com os fenícios, que, vindos do Mediterrâneo, aqui procuravam, sobretudo, sal, peixe salgado e cavalos.

É neste período que procura colher fundamento histórico a lenda segundo a qual Ulisses (Odisseu, no grego), enviado em busca de Aquiles (que vinha fugindo do destino de morte anunciado pelos oráculos), aqui vem encontrar o filho de Tétis, num templo de vestais nas margens de um dos muitos esteiros do Tejo, após o que ambos rumam a Tróia. Cumprida a missão, e destruída a cidade lendária, Ulisses regressa a casa, e, se as voltas corresponderem à descrição poética de Théophile Cailleux (Pays Atlantiques décrits par Homère, Paris, 1879), em direção a Ítaca,vindo do Norte e mesmo antes de contornar o Cabo Malea, este deixa-se seduzir pela recordação da brisa amena das paragens longínquas onde havia descoberto Aquiles, pelo ouro das águas do rio e pela proximidade do mar. Foi por isso que, numa das sete colinas em frente ao estuário desse Tejo imenso, fundou uma cidade a que deu o seu nome: Olissipo. Assim acreditava Caio Júlio Solino, no século III depois de Cristo, talvez baseado numa errada interpretação de escritos de Estrabão. Nunca ninguém certamente o saberá.

Mais tarde, Olissipo é corrompido para o latim Olissipona, e é na época romana que a cidade passa a sê-lo verdadeiramente, sempre com o mar como pano de fundo, defendendo alguns investigadores que Lisboa foi mesmo a capital marítima da Lusitânia.

E sendo a tese tão aliciante, o mito de Ulisses perdurou no tempo, resistindo à decadência do Império Romano, às invasões bárbaras, à ocupação visigótica e muçulmana, à reconquista cristã de D. Afonso Henriques (com a sua frota de 164 navios entrados no Tejo em 1147), à assunção de Lisboa como capital do Reino em 1255 e à época dos Descobrimentos, que tornaram a cidade num dos mais dinâmicos centros europeus e a afirmaram, enquanto ponto de partida para a expansão ultramarina, a verdadeira Capital do Mar.

Foi, aliás, assim que a evocaram Damião de Góis, na sua Descrição da Cidade de Lisboa (1554), Luís de Camões, n’Os Lusíadas (1572), Gabriel Pereira de Castro no seu Ulisses ou Lisboa Edificada (1636) ou António Sousa Macedo, em Ulyssipo (1640), mas também Fernando Pessoa, na sua Mensagem (1934). É, no entanto, Eça de Queiroz que, em A Cidade e as Serras (1901), alude a Ulisses e ao seu «amar muito azul» a Lisboa, afirmando o mítico herói grego e a sua relação com o mar, e fazendo dele o fundador da cidade física e da cidade dos homens na sua obra A Perfeição (1902).

Nos séculos que se seguiram, sempre com Ulisses como pano de fundo, a cidade foi-se transformando, e com ela a sua relação com o mar. Hoje já não partem caravelas, mas chegam cruzeiros. Onde aparcavam mercadorias vindas do Império, desenvolvem-se hoje modernas instalações portuárias, e a cidade redescobriu a sua faceta ribeirinha e atlântica. Na verdade, o seu perfil de Capital do Mar.

É certamente por atenderem a tudo isto que a Câmara Municipal de Lisboa e um vasto conjunto de parceiros querem tornar Lisboa na Capital do Mar. No documento LX Europa 2020 – Áreas de Intervenção na Cidade de Lisboa, apresentado no passado dia 21 de Junho na Reitoria da Universidade de Lisboa, são definidas dez áreas prioritárias para a promoção do crescimento inteligente, sustentável e inclusivo na capital, com recurso aos fundos do próximo Quadro Comunitário de Apoio 2014 – 2020. Nestas, assume especial relevância o eixo Lisboa, Capital do Mar, que envolve a criação de um campus do mar, isto é, «(…) uma rede universitária que reúna as ciências do mar, concebida com as várias universidades, integrando todas as áreas do saber», projeto que, pelo seu carácter estruturante, permitirá alavancar um vasto conjunto de investimentos, tão importantes no momento em que Portugal atravessa uma acentuada crise económica e é tão difícil mobilizar financiamento.

De forma inteligente, soube a Câmara Municipal de Lisboa exaltar o contributo que o Mar pode dar na afirmação da identidade da cidade, em termos nacionais e internacionais, enquanto polo de desenvolvimento em todos os domínios a ele associados, desde o conhecimento à economia, passando pelo turismo, pelo comércio e pela cultura, e encará-lo num impulso para acelerar o aproveitamento do seu potencial em todos os setores da economia.

E se Ulisses marcou a história de Lisboa, a sua localização geográfica afirma, a cada dia que passa, o seu perfil de Capital do Mar, simultaneamente europeia e atlântica, ponto de contacto privilegiado com os outros continentes, destinada a servir de elo de ligação com todo o espaço lusófono, para além de uma excecional plataforma logística atlântica.

É por isso que Lisboa, a cidade de Ulisses, a capital do Tejo e do Atlântico, potenciando e valorizando todo o imenso património identitário, geográfico, imemorial e construído, saberá afirmar-se a Capital do Mar.

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