Portos

Lisboa, um porto de sempre, um porto para o mundo

Desde sempre Lisboa foi o seu porto.

Quando D. Afonso Henriques conquistou a cidade aos mouros em 1147, os cruzados vindos do norte, desembarcaram vindos do mar.

O Arsenal, onde tantas naus e caravelas foram construídas, é bem no centro da cidade a algumas dezenas de metros do poder central no Terreiro do Paço, construído aliás no mesmo local onde tinha sido edificado por D. Manuel, o Paço da Ribeira, junto aos estaleiros onde se construíam os navios dos Descobrimentos. Este facto denota bem a importância do porto para o País e para o Mundo.

Daqui saíram os navios dos Descobrimentos, as naus para a Índia e para o Brasil, o Corpo Expedicionário para a Flandres em 1916, as expedições militares para as campanhas de África nos séculos XIX e XX ou até mesmo o cacilheiro da Joana Vasconcelos para a nossa participação na Bienal de Veneza de 2013.

Aqui embarcaram e desembarcaram reis, portugueses e visitantes. Aqui se movimentam cargas desde os tempos dos Fenícios, numa cidade que é habitada ininterruptamente desde há mais de trinta e dois séculos.

Lisboa é o mais importante porto português. Não em volume de carga, não na dimensão dos navios que o visitam, mas na diversificada de serviços que oferece aos navios, às indústrias da região e a todos os utilizadores portuários.

Entre as diversas actividades geradas na cidade de Lisboa, quase todas são aproveitadas pelo seu porto, e vice-versa. Os serviços de manutenção e reparação naval, a recepção de resíduos produzidos pelos navios, os abastecimentos de mantimentos, combustíveis ou sobressalentes, os serviços médicos, as actividades turísticas, a existência do aeroporto internacional, a oferta cultural rica, enfim todas estas actividades potenciam a vida da cidade e do seu porto.

Por exemplo, à volta de um estaleiro naval existem dezenas de empresas prestadoras de serviços, serralheiros, mecânicos, electricistas, pintores, soldadores e outros técnicos qualificados, cuja existência gera, por sua vez, trabalho e empreendedorismo de outros, criando riqueza e circulação de dinheiro, impostos e bem-estar social.

O mesmo se pode dizer dos escritórios dos agentes de navegação, dos operadores logísticos ou dos despachantes.

Uma empresa de trafego local, de rebocadores portuários ou de transporte fluvial, para além das dezenas de tripulantes que emprega em permanência, gera trabalho e empregabilidade directa e permanente em serviços de manutenção, abastecimentos, estaleiros, inspecções, certificações, mantendo uma disponibilidade de oferta de serviços que, por sua vez, ajuda à escolha do porto por parte dos armadores.

Este grande estuário do rio Tejo, que se estende desde Lisboa até Santarém, permitindo uma navegação fluvial tando comercial como de lazer, promovendo a interligação das populações ribeirinhas desde todo o sempre, para desenvolvimento de actividades comerciais, culturais e sociais.

Este vasto estuário, sempre fortemente ligada ao tráfego marítimo de Lisboa é, para além de um dos mais importantes activos do porto, tem criado um sem número de actividades geradores de emprego, promovendo à sua volta uma disponibilidade e oferta de serviços que são partilhadas com as restantes actividades económicas, sejam elas ligadas à navegação ou a qualquer outra indústria. Para além disso dissemina trabalho em locais da zona ribeirinha, Alhandra, Vila Franca, Seixal, Alcochete, Montijo, Barreiro ou Almada, entre outras, contribuindo significativamente para a manutenção de infraestruturas fluviais e portuárias e para as economias locais.

Também para os carregadores o porto de Lisboa tem merecido a sua preferência pela proximidade aos locais de produção e consumo e pela oferta de serviços complementares como armazenagem, facilidade de distribuição e de acesso aos depots de contentores.

Os fundos dos canais de acesso ao porto e dos seus cais, e a existência de vários terminais especializados, bem como a facilidade em dispor de meios complementardes de descarga, como gruas flutuantes, barcaças e pontões, são elementos facilitadores em situações particulares de cargas pesadas, especiais ou de projecto, onde a opção por Lisboa é óbvia, por comparação a outros portos.

Ao longo dos séculos mas particularmente, desde o início do seculo XX, Lisboa manteve e desenvolveu a liderança na oferta desses serviços crescendo o porto com a cidade e a cidade com o porto.

A oferta de competências, saberes e serviços, de Lisboa, que cobre todas as necessidades modernas da indústria de transporte marítimo, contribui, de forma significativa, para a escolha deste porto, gerando por sua vez o aumento dos serviços disponíveis como resultado de maior procura.

É essa a diferenciação de Lisboa enquanto porto, com actividades de apoio aos navios e às cargas, nalguns casos únicas no país, que foram aparecendo, crescendo e desenvolvendo, à medida das necessidades e dos novos desafios do transporte marítimo. Essa diferenciação de oferta de serviços fixou, ao longo da História, artífices e técnicos na cidade, carpinteiros, calafates, engenheiros, geógrafos e navegadores, contribuindo para a importância da cidade e do País.

 A cidade e o porto cresceram juntos ao longo dos séculos e toda a zona ribeirinha do Tejo, margem sul e margem norte, viveram durante décadas de um intenso tráfego fluvial, com ligação directa à operação de carga e descarga dos navios, que ainda hoje se verifica, movimentando milhares de toneladas de carga, directamente entre os locais de produção e os navios.

Os navios, as cargas e o movimento portuário fazem parte da malha urbana, tal como em outras cidades privilegiadas, fazem parte, com toda a sua riqueza e envolvimento social, tema de artistas, poetas e do fado. O que não dariam os parisienses para poderem ver o “Queen Elizabeth” junto à torre Eiffel?

Ao longo dos anos várias indústrias se instalaram na margem do Tejo, na área de jurisdição do porto, não só pela facilidade de movimentação das suas cargas, matérias-primas e produtos acabados, mas também pela sua localização relativamente à capital, perto mas suficientemente afastado para poderem desenvolver a sua atividade.

São exemplos a Siderurgia Nacional, o complexo industrial do Barreiro, as secas de bacalhau, as fábricas de extracção e refinarias de óleos alimentares ou, rio acima, a indústria cimenteira e de rações, todas elas com ligações directas e, quase sempre, com cais próprios que lhes permitem movimentar as suas mercadorias, tanto por via fluvial como directamente para a via marítima.

Hoje, algumas dessas indústrias perderam a sua importância, mas cresceu a actividade logística, com armazéns, plataformas intermodais e centros de distribuição, continuando a contribuir para a riqueza do país e do desenvolvimento de empresas prestadoras de serviços.

Com uma área de jurisdição que se reparte por onze concelhos o porto de Lisboa é um importante gerador de trabalho, emprego e de actividade económica tanto directa como indirecta. Sem hierarquizarmos a sua importância para cada um deles, que será fruto de estudo mais aprofundado, não pode deixar de ser referido a enorme interligação entre a normal actividade portuária, de chegadas, cargas e descargas de navios e as empresas cuja actividade gira à sua volta.

Empresas de manutenção naval, de máquinas ou industrial, de transporte rodoviário e ferroviário, de informática, de abastecedores de víveres, de amarração, de rebocadores, de estiva, terminais portuários, combustíveis, restaurantes e hotéis, fornecedores diversos, vivem em boa parte da actividade portuária e do facto de todos os dias haver navios a escalar o porto de Lisboa. De resto, nada de novo, ou que não aconteça desde tempos imemoriais.

Por outro lado a facilidade de encontrar mão-de-obra qualificada, quadros técnicos devidamente formados e experientes, são também factores competitivos importantes do porto de Lisboa, dada a concentração populacional na capital.

O desenvolvimento dos portos portugueses, o seu crescimento em anos recentes, as suas ligações às redes viárias e ao hinterland espanhol e europeu são, seguramente, uma mais-valia e um factor de desenvolvimento nacional, contribuindo de forma especializada para o crescimento da economia portuguesa e para as suas exportações, mas não será por isso que Lisboa perde a sua importância enquanto porto, continuando a ser a grande referência.

Nem sequer é necessário, para que esse desenvolvimento continue nos outros portos, que a capital perca qualquer importância. Pelo contrário, o sistema funciona em rede e o crescimento de uns arrasta o crescimento de outros, aumentando a importância do sistema portuário como um todo.

A concorrência, não está, nem nunca esteve, entre portos nacionais, cuja actividade se complementa, mas sim com alguns portos de países vizinhos, do Norte de África ou do Norte da Europa. Será pela conjugação de esforços e por uma prática de colaboração coordenada por uma estratégia política clara que os portos nacionais poderão crescer e ser um referencial para o mundo. Neste contexto o porto de Lisboa tem e terá sempre um papel fundamental e determinante.

No fundo, toda a grande Lisboa é um grande porto.

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