Pescas

Aquacultura Offshore

Portugal, na Costa Sul e na Ilha da Madeira apresenta condições bastante interessantes para a produção em aquacultura em mar aberto (offshore). Com um consumo bastante elevado de pescado per capita, perto dos 60kg/habitante/ano, Portugal está muito longe de ser auto-suficiente e importa a maioria do pescado que consome. Por sua vez a União Europeia também é bastante deficitária em produtos do mar importando mais de 70% do que consome, de diversos continentes. No entanto, com o crescimento económico verificado no Oriente nomeadamente na China, e na América do Sul, o consumo de pescado nestas regiões aumentou significativamente e os diversos países dessas regiões deixaram de ser fornecedores tradicionais de pescado e passaram nalguns casos a importadores em quantidades importantes.

Deste modo, existe a necessidade urgente quer de Portugal quer da Europa comunitária de aumentar a sua produção de pescado e de outros produtos do mar. No caso do nosso país, as tecnologias existentes actualmente, para a produção em mar aberto, permitem encarar com optimismo esta actividade, já se encontrando instaladas ou em instalação, no Algarve e na Madeira, importantes unidades de produção de bivalves e de peixes.

Cultivos no mar em jaulas e cabos (long-lines)

As jaulas e long-lines são instalados em locais junto à costa (“Fiordes”, enseadas e Portos) e que designamos por inshore ou em mar aberto que designamos offshore .

No primeiro caso, inshore, não existem muitas zonas em Portugal e o único exemplo instalado no continente é dentro do Porto de Sines, a Aquamar S.A. e, na Madeira na Baía D’Abra, em que as jaulas instaladas estão mais ou menos protegidas de grande agitação marítima e de tempestades por estruturas artificiais ou naturais Por exemplo, na Grécia, devido à configuração geológica, a maioria da produção é feita em jaulas protegidas por pequenas ilhas não existindo praticamente agitação marítima.

No caso do offshore as jaulas e os long-lines instalados encontram-se desprotegidos e sujeitos às condições do local em termos de correntes, ondulação e ventos. Neste caso poderia utilizar-se o exemplo das jaulas do IPMA ou as da Madeira no Campanário (embora neste caso com alguma protecção de Sul e de Poente devido à proximidade a terra) e os long-lines instalados na Área Piloto de Produção Aquícola (APPA) da Armona em Olhão ou entre Lagos e Sagres.

Tipo de jaulas

Existem assim diversos fabricantes e diversos tipos de jaulas em forma e materiais utilizados. A sua forma e resistência deverá estar em consonância com as características do local onde vão ser instaladas de modo a resistirem à ondulação, correntes e ventos. Actualmente produzem-se jaulas oceânicas especificamente para a produção em mar aberto com características e sistemas de ancoragem dimensionados para a sua instalação em locais bastante expostos.

Podemos assim ter jaulas flutuantes flexíveis (materiais plásticos ou borracha) (Fig.1) ou rígidas (aço), jaulas semi-submersíveis ou submersíveis igualmente flexíveis ou rígidas. São exemplos de jaulas submersíveis rígidas as do IPMA (Fig.2) e flutuantes flexíveis as que estão instaladas no Porto de Sines ou da Tunipex em Olhão.

O volume das jaulas varia com o seu diâmetro e altura da rede. No caso de jaulas flutuantes flexíveis utilizam-se diferentes dimensões em função do peixe em cultivo (idade e/ou espécie) sendo os maiores diâmetros 50-100m utilizados para engorda de atum. Podemos ter jaulas com volumes desde 1.000m3 até 50.000m3 ou superior. No cultivo de dourada e robalo normalmente utilizam-se jaulas entre 2.000m3 e 6.000m3.

A profundidade da rede também varia com a espécie em cultivo e com a fase do cultivo. Para uma mesma jaula de cultivo de dourada ou robalo pode utilizar-se uma rede de malha mais apertada e de menos altura (ex: 4m) no início do cultivo de juvenis, depois, ao fim de alguns meses de cultivo, em função do crescimento de algas e incrustantes (“fouling”) na rede esta é substituída por outra com uma malhagem intermédia e com maior profundidade (ex:6-8m) e na fase final da engorda é utilizada uma malhagem mais larga e uma maior altura de rede (ex:10-15m), de modo a permitir uma maior área/volume de cultivo aos peixes, proporcional ao aumento da biomassa estabulada.

Nestas jaulas a rede é suspensa com pesos e/ou anéis para manter o formato e tensão e, a sua substituição regular é obrigatória e depende essencialmente da velocidade das correntes e do “fouling”. Estas redes estão em tensão relativa pelo que tendem a deformar e, consequentemente diminuem o volume (em casos extremos podem concentrar demasiado ou mesmo esmagaro peixe) e provocam um sobre-esforço em toda a estrutura.

A dimensão das jaulas está normalmente relacionada com a produção pretendida de modo a dividir a produção em várias jaulas sem no entanto se tornarem demasiadas, pelo que o número e dimensão de jaulas estarão ajustadas à gestão da produção. Assim, uma empresa aumenta a produção aumentando simultaneamente o volume e o número de jaulas.

Nas jaulas submersíveis rígidas a rede está em tensão e não é substituída sendo limpa na jaula sempre que necessário. A malhagem a escolher deve ser em função da espécie a cultivar mas tendo em atenção que uma malhagem mais apertada pode dificultar a circulação de água e tornar-se problemática em grandes densidades de cultivo e oferece mais resistência à agitação marítima. Para contornar estas situações existem redes de pré-engorda que se instalam dentro destas jaulas e que são retiradas quando os peixes já atingiram uma dimensão em que não fogem pela rede principal.

Estas jaulas têm como principal característica a resistência à ondulação e a correntes fortes. São normalmente colocadas em zonas afastadas da costa (1 a 3 milhas). Numa profundidade que permita a sua ancoragem ao fundo do mar mas suficiente para a jaula não bater no fundo por acção das ondas.

As produções variam normalmente entre 10 e 40 Kg/m3 porque são em função das características de cada local. Assim em zonas protegidas e com menor circulação de água as densidades são menores e em zonas de maior agitação e com correntes mais ou menos constantes as densidades podem ser maiores porque há um fornecimento de oxigénio e renovação de água de várias vezes o volume da jaula por hora.

Em offshore a intervenção durante a produção é principalmente para a manutenção das estruturas, substituição das redes, fornecimento de alimento directamente ou aos alimentadores automáticos e para pesca. A produção é efetuada com poucas ou nenhumas triagens. Normalmente só se efectuam triagens em jaulas abertas e instaladas em zonas protegidas. Nas restantes o número inicial de peixe é calculado em função da produção final pretendida.

A escolha de um tipo de jaula deve assim ter em conta:

- As condições do local em termos de esforço sobre a estrutura – ondulação, correntes e vento.

- A espécie de peixe a cultivar e a dimensão inicial e final dos exemplares.

- A produção prevista que determina a dimensão da jaula. No entanto a dimensão/forma/tipo pode estar condicionada pela oferta do mercado.

- Aspectos particulares como a prévia experiência dos operadores.

As jaulas do tipo flutuante flexível apresentam assim a vantagem de poderem ser ampliadas no seu diâmetro e/ou profundidade da rede e normalmente apresentam um custo bastante menor por m3. As jaulas submersíveis rígidas não são ampliáveis, têm um maior preço inicial mas normalmente têm um menor custo de operação uma vez que a rede pode ser limpa no local e apresentam maior resistência a correntes e ondulação.

No caso dos long-lines (Fig. 3) teremos de observar os mesmos requisitos em relação à escolha do local e das estruturas de amarração e de produção. No caso do cultivo ser de mexilhão recorre-se à captura dos juvenis no meio natural, no local ou através da transposição de outro local de captura para, se iniciar a engorda. No caso da ostra, os juvenis (também designados por “semente”) provem de maternidades, previamente pré-engordados até ao tamanho mínimo desejável para se iniciar a engorda.

Nestas estruturas o peso e o volume vão aumentando com a fixação e o crescimento dos bivalves pelo que têm de ser dimensionadas em função destas premissas e das condições de mar do local. As metodologias de cultivo são diferentes das dos peixes considerando os bivalves se alimentam através da filtração da água do mar não lhes sendo fornecido alimento.

De um modo geral para a produção de peixes ou de bivalves as tarefas de planificação da produção e das vendas são semelhantes com as necessárias adaptações. O tipo de embarcações utilizadas também semelhante. É de salientar que o trabalho no mar que apresenta dificuldades acrescidas em relação à produção em terra, que têm de ser tomadas em consideração.

Tomemos como exemplo a APPA da Armona em Olhão (Fig. 4) que tem lotes com 24ha cada dos quais 8ha são para a instalação das estruturas de produção e o restante para amarrações e circulação de embarcações (Fig.5). Nos lotes, neste caso já com long-lines instalados, é possível uma produção média de 500t de mexilhão ou a instalação de 8 jaulas de 6.000m3 cada que com uma produção final de 20kg/m3 ou superior pode atingir 1.000t de peixe.

Vemos aqui uma oportunidade de aumentar muito significativamente a produção nacional de peixes e bivalves a curto prazo, multiplicando por 4 ou 5 vezes a produção actual. A tecnologia existe, o espaço está disponível e os apoios financeiros existem ainda até ao final do ano, pelo que se espera um grande e definitivo incremento da produção em aquacultura marinha.

 

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