Opinião

Exportar mais e melhor

É, para todos os efeitos, um resultado dececionante, sobretudo quando comparado com países da nossa dimensão, como a Bélgica ou Irlanda, em que esses valores ultrapassam os 80% no primeiro caso e os 90% no segundo. A pergunta é, pois: o que fizemos de errado para não estarmos hoje numa posição bem mais confortável?

A resposta está, em parte, no estudo «The incredible shrinking portuguese firm», de André Regateiro, tendo como coautores Lee G. Branstetter e Serguey Braguinsky. Por ele se constata que em 1986 a dimensão média das empresas em Portugal, medida pelo número de trabalhadores, era de 17,72. Passadas quase quatro décadas, esse valor reduziu-se drasticamente para 8,89 trabalhadores, em termos médios, por empresa, ou seja, uma quebra de 50%.

Mais: há cada vez mais pequenas empresas em Portugal e cada vez menos grandes empresas. Em 1986, as empresas com um a cinco trabalhadores representavam, 58% do tecido empresarial português. E as que tinham 31 ou mais trabalhadores atingiam 8,5% do total. Em 2009, constatava-se uma evolução surpreendente: aqueles números eram então de 74% e 4%, respetivamente. O autor do estudo salienta mesmo que não se encontra nada parecido na generalidade dos outros países desenvolvidos.

Quais são as consequências desta evolução? Primeiro, uma redução da produtividade geral da economia, porque estas pequenas empresas são, em geral, menos eficientes e competitivas, já que muitas delas são geridas por pessoas com menos competências e capacidades de gestão. Depois, uma pequena empresa não consegue, ao contrário de uma grande, explorar mercados globais e beneficiar de economias de escala que lhes permitam baixar significativamente os custos de produção. E as exportações ressentem-se porque as pequenas empresas têm muito menos capacidade de chegar aos mercados externos.

E assim estamos agora confrontados com o facto de, das mais de 250 mil empresas existentes em Portugal, apenas 18.000 são exportadoras. Destas, cem representam 50% das nossas exportações, incluindo-se aí unidades estrangeiras com um grande peso como a Autoeuropa. Depois, há cerca de 4.000 que pesam 45% das nossas vendas ao exterior. E finalmente, as restantes 14.000 não vendem senão 4 a 5%  do total.

Como é evidente, trata-se de uma base frágil para que sobre ela possa assentar a ideia de que sairemos da crise apenas pela via das exportações – e que atingiremos o rácio de 50% do PIB rapidamente (sem ser pelo encolhimento do PIB...). Não podemos também deixar de olhar para as empresas que operam no mercado interno e canalizar apoios e incentivos para que continuem a investir e a criar empregos e riqueza.

Voltando contudo às empresas exportadoras, há que reconhecer que nos últimos anos se conseguiu não só modificar o perfil das vendas ao exterior (as máquinas passaram a ser a principal categoria de produtos exportados), como alargar os mercados onde estamos presentes. Esse esforço, contudo, necessita de ser prosseguido, junto de mercados que talvez não sejam óbvios à partida: México, Colômbia, etc, para além, claro, de todos os países emergentes.

Seria importante igualmente que se replicasse aquilo que AICEP e Mota-Engil fizeram: criar um conjunto de PME capazes de acompanhar a construtora nos mercados externos onde ela está instalada e serem suas fornecedoras. É uma excelente maneira para as PME ganharem as suas esporas a nível internacional, habituarem-se a operar nos mercados externos e, finalmente, abrirem depois as asas e voarem sozinhas.

Finalmente, do ponto de vista fiscal, há certamente todo o interesse em fomentar a internacionalização das empresas portuguesas. Isso implica ou reduzir o IRC para novas empresas exportadoras ou fazê-lo por via de outros incentivos. Se exportar é preciso e se trata de um desígnio nacional, então o Estado tem o dever e a obrigação de utilizar os instrumentos de que dispõe para concretizar esse objetivo.      

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