Logística

Um Cluster Marítimo em Portugal

Tal é exposto na página 51 do magnífico trabalho conduzido pelo Professor Théo Notteboom da Universidade de Antuérpia (ITMMA – Institute of Transport and Maritime Management Antwerp) que preparou o Relatório “ Report Serving as Input for the Discussion on the TEN-T Policy”, para o Comité ESPO (European Sea Port Organization), denominado “Economic Analysis of the European Seaport System” (14 de Maio de 2009).

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Fonte: FERRMED

Esta Ilustração sobrepõe-se uma outra que antigamente se designava por “blue banana” e que congregava toda uma zona centro-europeia onde se concentravam e concentram as manchas de produção e consumo que obrigam à existência de importantes redes logísticas de impedância (somatório de custos parasitas e friccionais) mínima, economia de escala, com vias e modos de transportes por grosso e capilares que asseguram a função porta-a-porta sem circulação em vazio. Uma importante zona nevrálgica da criação da riqueza europeia.

Esta mesma ilustração que no referido relatório é já designada por “transição” da tal “banana” para o “blue boomerang”, conforme se pode ver, passa claramente ao largo de Portugal e de boa parte da própria Espanha com excepção da sua costa mediterrânica onde se situam importantes cidades e portos.

Assim sendo, como poderá Portugal centralizar sobre si próprio actividades que não sejam deficitárias, ou seja, que assegurem, economia de escala, retornos em carga, produção e consumo ainda por cima em tempos de recessão económica?

Que actividades se poderão então aqui implantar que tragam o nosso país para o interior desta mancha de riqueza e por onde passam os mais relevantes fluxos físicos informacionais e até financeiros?

Trata-se de um desafio que tem sido tentado e apontado por governantes, políticos, filósofos e muitos outros bem-intencionados sem que, tenha aparecido até ao momento, algum grande projecto nacional que congregando oportunidades empresariais, grupos económicos, investidores e empreendedores conduzisse a tal desiderato: incluir Portugal no tal “boomerang” acima apresentado.

Suponhamos pois uma nova ilustração que integre um Portugal periférico nesta mancha europeia de elevado valor e de actividade económica do maior relevo e importância.

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Desta imagem só conseguimos imaginar actividades ligadas ao “nosso” mar como sendo aquelas que podem “enfiar” Portugal no interior da mancha da riqueza europeia. Faz assim sentido insistir-se na constituição de um cluster do mar como raiz ou base de uma nova economia portuguesa do futuro; futuro esse que terá de começar a ser construído agora ou quanto antes, melhor.

Acerca da constituição de clusters marítimos podemos ir buscar alguns exemplos já conhecidos e estudados, nomeadamente:

  • A cluster analysis of the maritime sector in Norway, Gabriel R.G. Benito, Eivind Berger, Morten de la Forest, Jonas Shum, 2003, International Journal of Transport Management, pp. 203–215
  • Maritime clusters in diverse regional contexts: the case of Canada, David Doloreux, Richard Shearmur, 2009, Marine Policy, 33, pp. 520–527
  • On the dynamics of innovation in Quebec’s coastal maritime industry, David Doloreux, Yannik Melançon, 2008, Technovation, 28, pp. 231–243
  • The strength of Malaysian maritime cluster: The development of maritime policy,    Mohamad Rosni Othman,George James Bruce, Saharuddin Abdul Hamid, 2011, Ocean & Coastal Management, 54, pp. 557 – 568

O modelo do cluster do Québec é o que se apresenta de seguida, conforme Doloreux e Melançon (2008), acima referido e que podia ser tomado como um modelo próximo do que viesse a ser implementado em Portugal, considerando ainda algumas iniciativas iniciais de exploração do fundo oceânico em frente à nossa costa, nomeadamente o que concerne à pesquisa de bolsas de petróleo, eventualmente com exploração económica.

Tudo o que se apresenta para o Québec parece ser exequível para Portugal incluindo o que concerne ao desenvolvimento das auto-estradas inteligentes, interconectáveis e de impedância mínima. Não faltam conhecimentos científicos e técnicos às nossas universidades que nestas matérias têm apresentado muitas soluções à disposição na Web of Science e nos fora internacionais.

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Um cluster nacional do mar bem poderia conter as seguintes actividades económicas:

  • Actividades ligadas à fileira do Pescado
  • Aquicultura
  • Turismo náutico, recreio e mergulho
  • Turismo de cruzeiros
  • Exploração das energias, eólica, das marés e das ondas
  • Actividades cruzadas entre a conservação da natureza e o mar
  • Recursos do mar Ligados às Indústrias
  • Farmacêutica
  • Alimentar
  • Extractivas
  • Fileira das Actividades portuárias
  • Ligações de redes “inteligentes”, marítimo-terrestres, no domínio dos transportes e da logística.

Finalmente, e porque não, a criação de uma universidade marítima internacional, portuguesa, com o aproveitamento dos cursos e recursos que já existem actualmente, sem coerência de conjunto e de uma forma desgarrada, por diversas escolas universitárias e politécnicas.

Faculdade A Faculdade B Faculdade C Universidade X Instituto Y Escola Z
Direito Marítimo X
Direito do Mar x
Engenharia Naval X
Práticas Náuticas X
Biologia Marinha X
Logística X
Transportes Marítimos X
Gestão Portuária X
N...n... X

Tal universidade poderia ser criada de uma forma transversal e espalhada pelo território mas com uma gestão integrada dos cursos cujo interesse e coerência de integração fosse evidente independentemente da integração vertical actualmente existente ou a existir no futuro.

Mas ter ideias é uma coisa e, no entanto, materializar essas ideias é outra. Como materializar então a ideia da existência, em Portugal, de um cluster do mar português.

Apresentam-se de seguida algumas condições indispensáveis para a formação de um tal cluster.

De todas elas a mais importante e difícil será sem dúvida a inexistência em Portugal dos chamados “capitães de indústria” com vontade e capacidade de investir.

  • TICI (Tecnologias Inteligentes da Comunicação e Informação)
  • Novas Tecnologias de Diversa natureza
  • Movimentos Colaborativos
  • Partilha da Informação
  • Investigação Científica
  • Capitães de Industria
  • Institucionais
  • Estrutura de Inovação Sistemática
  • Lideranças

Não se vislumbra nos actuais detentores nacionais de capital nada para além de banqueiros, grandes Retalhistas ou empresários ricos ligados à Grande Distribuição; isto apesar de se lhes reconhecer inegável capacidade de liderança e investimento.

Em volta dos portos identifica-se uma miríade de pequenas e médias empresas que funcionando em rede e/ou sob a forma de movimentos colaborativos poderiam ou poderão dar massa crítica a um cluster marítimo de raiz nacional.

Provavelmente não será possível partir com sucesso, para um desafio tão relevante, sem recurso a capitais e investidores estrangeiros directamente interessados.

Por fim parecerá curial que um cluster marítimo português não poderá dispensar ligações em rede conectando outros clusters actualmente existentes nomeadamente o cluster norueguês e o canadiano.

Já existem organizações e instituições a pensar no assunto mas nem estas nem o próprio governo, ou outros institucionais, só por si, estarão em condições de dar corpo a estes enormes desafios.

Serão as entidades privadas, se as houver, que visando potenciais lucros de curto e/ou de mais longo prazo, quem poderão dar o grande empurrão que um tal projecto nacional possa nascer, crescer e desenvolver-se.

Quem tiver olhos que veja. Quem tiver a estratégia e o capital que arrisque porque os frutos a colher parecem promissores.

*Professor Coordenador c/Agregação do ISEL, Professor Associado Convidado c/Agregação no IST (Organização e Gestão Portuária); Investigador no Centro de Investigação em Engenharia e Tecnologia Naval (CENTEC) do IST; Membro Conselheiro e Especialista da Ordem dos Engenheiros; Membro da Secção de Transportes da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL); Membro do Conselho Consultivo do IPTM; Presidente do Conselho Português de Certificação Logística (CPCL). ( Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. )

 

 

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Comentários   

 
0 #2 Paulo Moreira 14-02-2013 11:39
Sines deve ser catalisador – em conjunto com outras infraestruturas regionais - à fixação de diversos clusters de indústrias de valor acrescentado direcionadas para a exportação, de modo que Sines não fique reduzido a um simples ramal de ligação a Espanha. O porto de Sines não pode ser visto como um simples local onde se carregam e descarregam cargas mas sim integrado na rede logística do qual faz parte. Mais, quem decide em última análise sobre a rede de distribuição são os armadores, os quais, através da verticalização das operações, a dominam. E não parece que Sines, com a sua fraca capacidade de absorção, esteja em condições de concorrer com a rede logística existente em termos de desvios de tráfego, pelo menos no médio prazo. Assim, a preocupação substantiva deverá obedecer mais à lógica de Sines como potenciador de desenvolvimento regional do que à de porto de transhipment.
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0 #1 José Roque 28-10-2012 11:00
muito interessado no assunto
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Threesome