Indústria, Construção e Reparação Naval

Construção e reparação naval - A NAVALRIA numa perspetiva temporal

O arranque de um novo estaleiro naval pressupõe sempre avultados investimentos iniciais, pelo que se torna conveniente a intervenção estatal para infra-estruturar as instalações ou, no mínimo, para concessionar o espaço em condições atractivas.

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Com este novo estaleiro em Aveiro, Ílhavo passava a dispor, assim, de uma unidade moderna e bem equipada para dar resposta às necessidades de manutenção e reparação da sua extensa frota pesqueira. Naturalmente, também outro tipo de navios usufruía destas instalações, tais como rebocadores, dragas, batelões, cargueiros, navios de passageiros e outros.

No entanto, com o passar dos anos e com a quase total ausência de reinvestimento e de manutenção industrial, o estaleiro foi-se degradando e, em 2007, encontrava-se nos limites mínimos de operacionalidade e segurança. Muitos equipamentos não funcionavam ou funcionavam com limitações, havia edifícios com risco de ruina eminente, carris arrancados, a porta da doca seca apresentava perigosos níveis de degradação e uma das estacas do elevador naval acabou mesmo por ceder com um navio em cima, já em 2008, numa situação que poderia ter tido graves consequências.

A nível ambiental registavam-se preocupantes situações de resíduos abandonados sem qualquer contenção, contaminação do meio hídrico e existência de fibras de amianto livres, entre muitas outras vicissitudes.

Apesar de sabermos que não são muitos os estaleiros navais em Portugal que apresentam elevados níveis tecnológicos, de segurança e de respeito pelo ambiente, dado o abandono a que o sector tem sido votado nas últimas décadas, ainda assim a Navalria conseguia destacar-se francamente pela negativa face ao restante panorama nacional.

Nestas condições não tardaria a ocorrer um acidente grave ou a que as autoridades ambientais ou das condições de trabalho aplicassem pesadas coimas e exigissem correcções de tal monta que a empresa teria necessariamente que encerrar portas.

A operacionalidade do estaleiro seria insustentável a muito curto prazo. 

“Vícios” das Concessões

Apesar dos níveis de degradação verificados no estaleiro em 2007, a Navalria distinguia-se dos seus concorrentes por apresentar uma invejável situação financeira.

De facto, muitos estaleiros navais portugueses – e não só – não conseguiam investir em actualizações tecnológicas nem podiam proceder à manutenção dos meios existentes por sofrerem de graves dificuldades financeiras. Em diversos estaleiros a situação foi-se acentuando até o inevitável encerramento da unidade.

Não sendo este o caso da Navalria, que dispunha de uma liquidez de montante quase igual ao seu volume de negócios anual (!), por que não havia reinvestimento? Por que se descuravam as questões de segurança e ambientais?

Acreditamos encontrar a resposta num fim de ciclo da concessão. A concessão inicial da Navalria, adjudicada em 1978, era de trinta anos prorrogável por períodos de dez anos. Em 2007 aproximava-se o fim do período inicial de trinta anos e ainda não havia confirmação de prorrogação. Poderia ser esta a razão para não se reinvestir, por não haver garantias de se assegurar o futuro.

Esta circunstância é típica de fins de ciclo de concessões e poderia ser minorada se fosse previsto um período alargado, antes do fim da concessão, em que já se conhecesse a decisão de prorrogação.

No caso concreto, felizmente, a Navalria acabaria por ser adquirida pela Martifer e foi reposta a operacionalidade, segurança e cumprimento ambiental.

Martifer

ns2Entretanto, em 1990 era constituída a Martifer, dedicada às construções metálicas.

Em cada obra, a Martifer procurava sempre inovar quer no produto, quer a nível do processo. Esta inovação constante conferiu-lhe vantagens competitivas que potenciaram elevados níveis de crescimento e, de uma pequena empresa metalo-mecânica, rapidamente a Martifer se tornou num grande grupo industrial internacional.

Com a diversificação para as energias renováveis – eólica, solar, biodiesel – apostou também num projecto de equipamento para aproveitamento da energia das ondas, o projecto “FLOW – Future Lives in Ocean Waves”.

Pelas suas dimensões e características técnicas, a construção da máquina FLOW assemelha-se à construção naval. Assim, em Janeiro de 2008 e depois de exploradas diversas alternativas, a Martifer acabou por adquirir a Navalria – estaleiro reparador – e rapidamente começou a conversão para transformá-la num estaleiro construtor.

A concessão do estaleiro passou também a incluir os extintos estaleiros Aveinave (ex-Carnave), passando a integrar uma área total de 124.000 m2.

A recuperação da Navalria

Imediatamente foi iniciada a transformação do estaleiro, com maior urgência na correcção das irregularidades que configuravam perigo para as pessoas e ambiente.

Alguns equipamentos foram abatidos, edifícios foram demolidos e os restantes foram recuperados. Como se pretendia converter a Navalria para a construção naval, o layout industrial foi adaptado em conformidade e muitos novos equipamentos foram adquiridos.

Dadas as características geológicas dos solos, constituídos maioritariamente por lodos e areias, a instalação de equipamentos como gruas e plataformas transportadoras implicava sempre a construção de vigas de apoio que frequentemente ultrapassavam o custo dos respectivos equipamentos.

A Navalria foi assim equipada com um parque de chapas, com gruas, transportadores, pantógrafo de corte numérico com plasma e oxi-corte, para além do equipamento ligeiro e ferramentas.

Face às necessidades de formação dos trabalhadores internos e subcontratados, foi também constituído um espaço com duas salas de aulas.

Incentivada e motivada pela forte dinâmica do Grupo Martifer, logo no primeiro ano após a aquisição a Navalria registou um crescimento de actividade de 40% só na reparação naval, ainda sem o contributo da construção naval, e ao mesmo tempo que decorria a reconstrução do estaleiro.

A gestão profissionalizou-se, tendo sido constituídas equipas para as áreas da construção naval, qualidade, preparação de trabalho, comercial, planeamento e controlo, segurança e ambiente e financeira, para além da já anteriormente existente área da reparação naval. O número de trabalhadores foi aumentado em 40%.

FLOW – Future Lives in Ocean Waves

Enquanto decorria a reconstrução da Navalria, o projecto FLOW seguia o seu caminho de desenvolvimento.

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Os resultados dos modelos à escala em tanques de ondas foram extremamente positivos, confirmando as previsões dos modelos matemáticos. Destacavam-se dois importantes resultados para um equipamento deste tipo: resposta de largo espectro, para vários estados de mar, e óptimas características de sobrevivência, mesmo em condições severamente adversas.

Com estes encorajadores resultados passou-se à fase de desenvolvimento de desenhos de construção e à aquisição de aço.

No entanto, a crise financeira internacional veio colocar abruptamente o projecto em espera. Com a escassez global de recursos financeiros a Martifer focou-se em projectos “core” e a Navalria, que já tinha em curso os investimentos para a actividade de construção naval, teve que encontrar formas de os rentabilizar. 

A Navalria hoje

ns5Preparada para o novo desafio da construção naval, a Navalria começou a desenvolver esforços comerciais nesta área.

No espaço de dois anos construiu cinco embarcações e tem actualmente duas mais em construção.

As primeiras embarcações foram dois ferries para a Transtejo. São dois catamarans de aço de 47,5 metros de comprimento e com capacidade para 29 viaturas e 360 passageiros, que fazem a travessia entre o Cais do Sodré e Cacilhas.

Seguiram-se duas embarcações para a Via D’Ouro, para a actividade marítimo-turística no rio Douro. Com as tradicionais linhas dos barcos-rabelo típicos da região, foram no entanto construídas em aço, permitindo grandes poupanças de combustível e de custos de manutenção. São os primeiros barcos-rabelo construídos neste material.

Em 2011 foi entregue à Douro Azul um luxuoso navio-hotel de 80 metros de comprimento. Destinado aos cruzeiros fluviais no rio Douro, tem capacidade para 130 passageiros e 36 tripulantes. É um verdadeiro hotel flutuante com restaurante, bar, cabeleireiro, ginásio, loja, piscina, etc.

Estão actualmente em construção mais dois navios-hotel para a Douro Azul, para entrega em 2013.

De um obsoleto e degradado estaleiro de reparação naval, a Navalria tornou-se rapidamente no estaleiro de construção com maior actividade no País.

O futuro da Navalria

A reparação naval tem um fluxo relativamente regular de actividade porque a frota existente precisa sempre de manutenção. O mercado internacional da construção naval está obviamente mais incerto devido às actuais dificuldades de financiamento. Mas, estando todos os estaleiros navais localizados numa frente de água, abrem-se oportunidades de trabalhos em grandes estruturas que, pelas suas dimensões, não podem ser transportadas por terra. Por exemplo, a implantação de parques eólicos offshore no Reino Unido, Alemanha e países escandinavos já representa uma nova oportunidade de negócios.

Numa altura em que Portugal mostra finalmente sinais de querer redescobrir o Mar, não faria sentido que não dispuséssemos de estaleiros navais para construir e reparar os navios que serão necessários para cumprir esse Desígnio.

Olhamos agora para o Mar como fonte de diversas novas oportunidades de exploração sustentável. Para além das tradicionais pescas e exploração de petróleo e gás, teremos também que tirar partido da exploração de minérios, energias renováveis, exploração da diversidade marinha para a indústria farmacêutica e até da colonização do Mar, com estações/plataformas permanentes, entre muitas outras utilizações.

Todas estas actividades tão díspares no Mar têm um ponto em comum: serão sempre necessários navios para as desenvolver; para estudar, explorar, fiscalizar, enfim, para utilizar o Mar.

Seria incoerente como País apostarmos no Mar sem apostar nos Estaleiros Navais.

Apesar de todas estas oportunidades, na actual conjuntura internacional torna-se difícil fazer projecções a longo e mesmo a médio prazo.

É certo, porém, que a Navalria está hoje dotada de meios humanos e industriais que lhe permitem encarar os novos desafios com segurança.

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