Indústria, Construção e Reparação Naval

A pequena construção naval no Algarve: um caso dev resistência, de inovação e de internacionalização

NAUTIBER – Estaleiros Navais do Guadiana, Lda., empresa situada em Vila Real de Santo António, no estuário do rio Guadiana, tem por actividade principal a Construção Naval em Fibra de Vidro, realizando também Projectos de Recuperação e Alteração de embarcações existentes, Manutenção/Reparação Naval e Parqueamento de embarcações.

A história da NAUTIBER está intimamente ligada à história de Vila Real de Santo António, terra desde sempre ligada ao sector da construção naval, tendo a nossa empresa sucedido a um conjunto de estaleiros de construção e reparação em madeira de diversos tipos de embarcações.

Esta arte e conhecimento, que passaram de geração em geração, evoluíram e desenvolveram-se acompanhando as novas tecnologias.

Possuímos um elevado património humano, que agrega o conhecimento tradicional do trabalho em madeira bem com o conhecimento actualizado em compósitos avançados, como são os estratificados em sandwich de PVC por infusão assistida a vácuo.

Vila Real de Santo António foi também desde sempre uma terra marcada por uma forte presença industrial nos sectores da indústria conserveira, pesca e construção naval, tendo tido o seu auge entre as décadas de quarenta a sessenta. Infelizmente, com o evoluir do tempo e com as decisões políticas estruturais tomadas para o país, perdeu-se quase na totalidade a componente física de alguma dessa indústria, tendo-se mantido no entanto o conhecimento humano.

Foi determinante para este sector em V.R.S.A. o grupo COFACO.

Para além da forte componente conserveira que deteve até há alguns anos, criou a empresa de construção naval CONAFI, que foi sem qualquer dúvida um pólo de desenvolvimento e uma “escola” a nível nacional, para a indústria da construção naval, em particular no mercado das embarcações de trabalho.

Tendo sido responsável pela conversão do conhecimento da indústria naval em madeira para a fibra de vidro, foi uma das principais indústrias a nível europeu no seu segmento. De tal forma que, após ter vencido o concurso internacional para as primeiras lanchas de fiscalização destinadas à GNR-BF, foi rapidamente adquirida pelo grupo espanhol RODMAN, eliminando desta forma um concorrente importante e conseguindo executar o trabalho que acabara de perder.

A NAUTIBER resulta também por ser uma consequência da tradição e conhecimento existente neste sector em V.R.S.A.

Sucede à ex-empresa José de Nascimento Gomes e Filhos, Lda., estaleiro de construção e reparação naval em madeira que iniciou a sua laboração em 1957 e cessou em 1989. Esta originou a firma Botabaixo - Estaleiros Navais do Sul Lda., empresa que iniciou o ciclo das construções em Poliéster Reforçado a Fibra de Vidro, tendo em 1992, por razões comerciais, passado a ter a denominação actual.

Presentemente possui cinco pontos de produção fabris distintos, todos localizados em Vila Real de Santo António, totalizando  uma área de 16.500 m2, e que inclui as antigas instalações da CONAFI, adquiridas ao grupo RODMAN no final de 2011, nas quais desenvolve actualmente a maioria da sua actividade e onde se encontram actualmente os seus serviços administrativos.

Estas instalações com 10.000m2 foram projectadas e edificadas especificamente para esta actividade, dispondo de uma nave com 50x30m e com 17m de pé direito, servida por pontes rolantes. Em anexo à mesma, existem espaços com cerca de 1500m2 destinados aos serviços e oficinas de serralharia/mecânica, electricidade, corte de fibra de vidro, fabrico de painéis planos, armazém geral, paiol de químicos, ferramentaria, balneários, enfermaria e serviços administrativos.

Dispõe ainda de uma área descoberta de 7.000m2, destinada ao parqueamento de embarcações.

Para a colocação a nado e alagem de embarcações para ambos os espaços existe uma carreira/rampa com 55m, servida por um guincho com capacidade até 220t e sete carros de alagem, dos quais quatro possuem encosto lateral ajustável por sistema hidráulico, permitindo o manuseamento de embarcações até 15m de boca e a colocação das mesmas a coberto.

Para o mesmo efeito, mas para embarcações até 20t adquiriu recentemente um reboque hidráulico, que serve fundamentalmente para a subida e parqueamento de embarcações de recreio.

Na zona industrial de V.R.S.A., onde normalmente se desenvolvem projectos que requerem um espaço individualizado, quer por requisito dos clientes quer atendendo à especificidade dos mesmos, dispõe de duas naves com 25x12m totalmente equipadas. Neste espaço utilizam-se de uma forma mais intensiva, compósitos avançados, possuindo para tal uma mesa para fabrico de placas planas por infusão com 10x5m.

No porto de pesca de V.R.S.A. foi-lhe destinada uma pequena infra-estrutura de apoio que confina com o cais acostável, local onde efectua os últimos trabalhos de finalização das novas construções e onde realiza as provas às mesmas.

Detém ainda as instalações originais da NAUTIBER, com duas naves de construção com 35x14m e 35x15m, com pés direitos de 12m e 13m respectivamente, servidas por um espaço oficinal, uma carpintaria, armazéns e serviços administrativos.

Possui ainda um pequeno estaleiro de reparação, contíguo às novas instalações, equipado com carreiras e carros tradicionais, com uma carpintaria apetrechada para serviço de reparação em madeira.

A NAUTIBER emprega actualmente trinta e uma pessoas, como colaboradores directos, recorrendo ainda a uma média de oito colaboradores indirectos.

Tem nos seus quadros sete Carpinteiros Navais, seis Serralheiros/Mecânicos, oito Laminadores, três Pintores, um Electricista, uma Administrativa, um Gestor Financeiro, um Eng.º. Mecânico, dois Eng.os Navais e um Arquitecto.

Por norma, laboram ainda em média nas nossas instalações oito colaboradores subcontratados a empresas de montagem de equipamentos diversos, nomeadamente de frio, electrónicos, electricidade e hidráulicos.

Trabalha fundamentalmente o mercado de trabalho das novas construções em PRFV (poliéster reforçado a fibra de vidro) para os mercados das embarcações de Pesca, embarcações de Passageiros (Marítimo-turística e Tráfego Local) e ainda embarcações Especiais (lanchas fiscalização/intervenção, embarcações de apoio à aquacultura, embarcações ambulância, etc.). Sempre de uma forma personalizada, executando as mesmas à medida do cliente e tendo em linha de conta o tipo mecanismos financeiros existentes, pelo que por diversas vezes já foi apelidada de “alfaiate dos barcos”, encontrando-se sempre disponível para criar embarcações de acordo com o pretendido pelo armador e que maximize a relação da embarcação pretendida versus incentivos financeiros.

A venda de embarcações de trabalho, de uma forma geral, está sempre associada a um apoio financeiro, pelo que a NAUTIBER procurou sempre vender as novas construções associadas a um desses mecanismos. Sempre que possível, preparando o processo de forma a que os nossos clientes apenas tenham como preocupação garantir os capitais próprios. E mesmo aí, se necessário, facilitando e agilizando, nomeadamente até à entrega da embarcação. Isto tem permitido o acesso a diferentes armadores, e que os mesmos se mantenham dedicados e concentrados na sua actividade durante o período de construção da nova unidade.

Como é do conhecimento geral, nos quadros comunitários de apoio anteriores a indústria naval nacional foi estimulada a crescer, em particular devido aos apoios existentes às novas construções para a pesca. O actual quadro comunitário não trouxe qualquer tipo de apoios às novas construções para o sector da pesca, com excepção do mercado dos Açores que infelizmente também já se esgotou, pelo que actualmente no sector da pesca só esporadicamente vão aparecendo algumas oportunidades de trabalho.

De momento, o principal mercado de novas construções resume-se às embarcações para apoio à aquacultura e actividade Marítimo-turística.

Não estando estes dois mercados isentos de IVA, os Armadores optam muitas vezes por construir em Espanha como forma de ultrapassar esse constrangimento de tesouraria, nomeadamente na aquacultura, em que a totalidade dos projectos colocados e aprovados no âmbito do PROMAR, foram com construções a serem realizadas em Espanha. Felizmente vamos conseguindo inverter essa situação, quer por força da legalização das embarcações perante as autoridades nacionais quer pelo trabalho comercial por nós desenvolvido.

Sendo a NAUTIBER a empresa líder a nível nacional no sector das novas construções em fibra de vidro, em meados de 2012, tornou-se imperioso com o fim do trabalho para a pesca, arranjar alternativas que compensassem a quebra desse mercado e isso teria que passar por provocar o mercado das embarcações da Marítimo-turística com produtos inovadores, nomeadamente ao nível do conceito, desempenho e design, pelo que se apostou conjuntamente com os nossos clientes em criar embarcações que rompessem com o tradicional e criassem novos produtos para o turismo náutico.

Exemplo disso são duas construções entregues recentemente para o Algarve, o “JAMANTA” e o “BELIZE SEGUNDO”, a embarcação “CETUS”, que veio alterar a estrutura comercial do avistamento de cetáceos nos Açores, tal como a “QUATRO VENTOS” alterou o avistamento de golfinhos e a “ZUCA” os passeios de canoa no Algarve.

De uma forma genérica hoje qualquer construção destinada ao mercado da Marítimo-turística, tem associado ao seu projecto um designer ou um arquitecto, procurando-se também que cada uma traga um novo conceito para a sua actividade.

De momento encontramo-nos a construir para a actividade Marítimo-turística, cinco embarcações de passageiros, do tipo catamaran, das quais três para 120, uma para 50, e outra para 32 passageiros. Temos ainda em construção dois monocascos para 35 e 93 passageiros respectivamente.

Para a pesca temos em construção uma embarcação para o cerco com 25m de comprimento e 7.4m de boca.

Temos em construção uma embarcação tipo catamaran de 18m, destinada ao apoio à aquacultura offshore.

A expectativa da NAUTIBER, em termos de mercado nacional, é a de conseguir realizar na área das embarcações de passageiros os projectos já aprovados e possam vir a ser aprovados no âmbito do QREN.

Paralelamente, executar mais alguma construção para pesca, nomeadamente para o cerco, assim como construir novas unidades para apoio à aquacultura offshore, dando resposta a novos projectos que surjam aprovados no âmbito do PROMAR.

Existe ainda a expectativa de se executar algum trabalho a curto prazo para países Africanos de expressão portuguesa, assim como para o Norte de África, fruto do trabalho comercial que se tem vindo a desenvolver nesse sentido junto dos mesmos.

Julgamos que aquilo que é fundamental, em termos de futuro para a nossa indústria, passa fundamentalmente por:

  • Incentivo à criação de oportunidades de trabalho, através de mecanismos financeiros que promovam as mesmas, nomeadamente a retoma dos apoios às novas construções para Pesca, manter os apoios existentes ao nível do PROMAR para a aquacultura, manter os apoios no âmbito do QREN à actividade Marítimo-turística, assim como alargar os mesmos ao Tráfego Local, permitindo e promovendo ao mesmo tempo, junto das diferentes instituições ligadas ao mar, a renovação dos seus equipamentos de forma a permitir renovar as embarcações deste sector.

  • Acarinhar a realização destas mesmas construções pela indústria nacional, e como tal o Estado deverá ter a preocupação de dar o exemplo. Uma vez que infelizmente tudo o que têm sido oportunidades de trabalho criadas por instituições/ organismos públicos têm invariavelmente sido executados por estaleiros estrangeiros.

  • Apoios, no âmbito do próximo Quadro Comunitário, que incluam a nossa indústria no que concerne ao sector produtivo da mesma, nomeadamente no que se refere a instalações e equipamentos.

  • Que as entidades reguladoras do sector, nomeadamente a DGRM (ex-IPTM), assumam-se de uma vez por todas como parceiros da indústria e não como uma entidades fiscalizadoras e constrangedoras das actividades.

  • Aplicação de um “simplex” ao sector, no que respeita a procedimentos e ao número entidades envolvidas.

    Resumindo, julgamos que toda a estratégia nacional ligada ao mar e com a qual nos congratulamos, deverá ser acompanhada de oportunidades trabalho reais criadas pela mesma, fomentando a execução pela indústria nacional, devendo para tal existir uma especial atenção por parte das entidades que a lideram, porque só assim se poderá garantir a sustentabilidade de todo o sector.

 

Construção e reparação naval - A NAVALRIA numa perspetiva temporal

ns1A fundação

A Navalria foi fundada em 1978, em Aveiro, dando continuidade aos antigos Estaleiros de Mestre Manuel Maria Mónica, na Gafanha da Nazaré.

Para tanto, a Junta Autónoma do Porto de Aveiro (JAPA) infra-estruturou e concessionou uma área com a doca flutuante do antigo estaleiro do Mestre Mónica, com uma nova doca seca, com pavilhões-oficina, escritórios e, mais tarde, com um elevador naval. De facto, sem o investimento inicial da JAPA teria sido difícil à iniciativa privada instalar tal capacidade industrial.

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