Investigação, Desenvolvimento & Inovação

O Algarve e o Cluster do Mar

A coerência do ambiente económico e social das regiões baseia-se na solidez das relações que os diversos agentes estabelecem entre si. Uma região só se conseguirá afirmar se o seu tecido económico ultrapassar a fase de fragmentação, reflectida numa espécie de arquipélago territorial, e se a sua comunidade adoptar um projecto convergente e socialmente mobilizador.

De acordo com esta perspectiva, os diversos intervenientes na economia das regiões deverão procurar estruturar as suas actividades de forma a atingirem um adequado grau de integração, contribuindo para que o valor acrescentado regional seja sempre superior à soma algébrica das parcelas sectoriais quando consideradas isoladamente.

Esta perspectiva consolida-se através de compromissos construídos em dois planos: de forma explícita e através de entendimentos tácitos. Compromissos explícitos permitem que os agentes regionais manifestem essa vontade e trabalhem em consórcio para atingir determinados objetivos que são coletivamente assumidos e contratualizados. Cumplicidades tácitas fomentam um ambiente de cooperação informal que, em cada momento, permite positiva e voluntariamente condicionar as opções que todos têm à disposição, promovendo a adoção das que se revelem mais coerentes e satisfatórias para a comunidade.

Mas as regiões não se bastam a si próprias. Num mundo praticamente sem fronteiras, como aquele em que vivemos, a inserção global das regiões através da valorização dos seus fluxos e da afirmação da sua identidade deve constituir uma prioridade central das respetivas estratégias. Esta tendência assume uma maior expressão em regiões de pequena dimensão, para as quais o recurso a meios e a tecnologias externas se revela fundamental, o que obriga a uma atenção redobrada na especialização da região e na sua diferenciação.

Neste campo, a componente de investigação científica tem de forma crescente desempenhado o seu papel. Muitos das Unidades de Investigação, integradas ou não em Universidades, começaram a interessar-se pelo ambiente produtivo que as cerca e pelas oportunidades de negócio potencialmente impulsionadas pelos resultados das suas linhas de pesquisa. O fluxo de conhecimento que está associado a uma valorização mercantil e a uma eficaz intervenção no mercado é já assinalável e responde a uma crescente abertura das instituições dos sistemas científicos e tecnológicos.  

É deste modo que se consolidam clusters regionais, agregando actividades, promovendo a circulação do trabalho, multiplicando a formação orientada, atraindo capacidades e qualificações, valorizando mutuamente os recursos disponíveis, incorporando conhecimento e gerando densidade no relacionamento entre o conjunto dos membros que definem cada região. São estas razões que permitem sublinhar que a afirmação das regiões, mesmo nos casos em que possa haver abundância de recursos, está cada vez mais dependente da existência de projecto regional, colectivamente assumido e mobilizador das suas capacidades.

No caso das regiões marítimas, o Mar tem-se revelado como o catalisador por excelência, decisivo na construção de clusters regionais em torno das actividades que dele dependem ou que aproveitam os seus recursos.

Avaliando o exemplo da região do Algarve e analisando a estruturação da componente regional do cluster do mar, pode-se registar uma evolução positiva quando observada do ponto de vista da Universidade e das suas áreas de competência.

As áreas científicas que concentram maiores capacidades no Algarve inserem-se nas ciências e tecnologias do mar (recursos vivos, biotecnologia azul, oceanografia, gestão costeira), nos diversos aspetos relacionados com o turismo (sol e mar, náutica de recreio, cruzeiros, natureza, desporto), na energia, incluindo as renováveis e as opções baseadas em combustíveis fósseis. A construção e a reparação naval, assim como o transporte marítimo, têm alguma expressão na região e beneficiam apenas dos apoios institucionais, tecnológicos e logísticos que são proporcionados a todas as atividades.

No domínio das ciências e tecnologias do mar, as atividades de investigação desenvolvidas no âmbito da Universidade do Algarve representam a maior parcela da sua produção científica. E, para além do nível de excelência da sua produção, deram origem a um elevado número de pequenas empresas, muitas delas em fase de internacionalização. Sparos, Marsensing, Ecoceanus, Caviar Português, são algumas das que já se consolidaram nos domínios da produção de recursos vivos.

A investigação científica na área da biotecnologia azul abre enormes perspetivas de interesse para a saúde, para a indústria alimentar, para a aquacultura e para a produção de biocombustíveis.

Os diversos aspetos do turismo têm também sido objeto de variados projetos de produção de conhecimento e de análise de tendências evolutivas dos mercados que estão associados a este complexo de atividades. Aqui as pequenas empresas criadas tentam cruzar serviços, ambiente e lazer, numa oferta variada, criando riqueza e emprego.

No domínio da energia, a Universidade está em vias de instalar um Laboratório Oceanográfico junto à principal barra da Ria Formosa, destinado a assumir funções de observatório local e a testar turbinas subaquáticas que aproveitem a força das marés.

Nos restantes domínios, a participação da investigação científica faz-se em planos transversais, nas tecnologias da informação e da comunicação, no design, no marketing, na diferenciação, contribuindo para uma quadro de diversificação e de afirmação que remete para a adoção de um perfil regional diferenciado.

O grande desafio do período 2014-2020 está no aprofundamento desta relação conhecimento-mercado, encontrando modalidades para assegurar níveis elevados de transferência de tecnologia para as empresas e para reestruturar um tecido produtivo em áreas diferentes dos serviços de base territorial. O próximo quadro comunitário de referência coloca a prioridade justamente na melhor articulação entre os agentes regionais, designadamente em domínios relacionados com a dinamização empresarial e com a incorporação de conhecimento. Esse desafio tem conduzido as diversas Unidades de Investigação da Universidade a darem uma especial atenção às suas estratégias futuras, sugerindo infraestruturas de uso comum, pesquisa sobre os recursos territoriais, valorização de resultados de investigação traduzidos na comercialização de patentes, consórcios com empresas, criação de núcleos de I&D nas empresas, fomentando um quadro de cooperação internacional e de mobilização de competências disponíveis noutras latitudes. Neste domínio, o papel da CCDR Algarve tem sido decisivo no desafio que tem lançado para estruturar ex-ante a estratégia e as parcerias necessárias ao desenvolvimento deste desígnio.

A associação MARALGARVE, entidade entretanto criada e agrupando empresas, administrações locais, instituições do sistema científico, infraestruturas de apoio assumir-se-á como um instrumento importante nessa convergência.

E regressamos à problemática inicial. Todo este quadro terá sentido se baseado em projetos concretos, com objetivos precisos, parceiros definidos, calendários adotados e avaliação garantida. A estratégia de investimento subordinado apenas ao critério da elegibilidade constitui um marco já ultrapassado. A identificação dos melhores projetos capazes de incorporar conhecimento e de entrar no mundo da circulação global passa a ser imperativa.

 

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