Investigação, Desenvolvimento & Inovação

Lisboa e os Oceanos

Hoje vivemos num planeta globalizado onde a relevância das cidades cresce todos os dias. No século XXI, o peso das cidades na economia é indelével. Na OCDE, organização que agrupa grande parte dos países ditos mais desenvolvidos, mais de 53 por cento da população vive em cidades, sendo nesses espaços de grande aglomeração populacional que o futuro do nosso planeta é decidido.

É também para estes espaços urbanos que a competição se transferiu. Hoje é provável que a competição para atrair pessoas e empresas seja muito superior entre cidades e áreas metropolitanas do que entre países. Assim ao contrário de pensarmos que Portugal está a competir com os outros países europeus e mundiais, poderá fazer sentido refletir mais sobre a competição de Lisboa ou Porto com Madrid, Copenhaga, Berlim ou Londres.

Segundo Alfonso Vergara e os estudos da Fundación Metrópoli, a competição dá-se mais ao nível das áreas metropolitanas do que propriamente das cidades, devendo existir para todos os assuntos uma estratégia concertada entre os vários elementos dessa área territorial.

Neste contexto é essencial as cidades identificarem as suas vantagens competitivas por forma a serem exploradas e comunicadas de forma eficiente e adequada às entidades que procuram locais de implementação.

Lisboa tem a beleza, o clima, a gastronomia e muitas outras qualidades que a podem tornar desejada, mas existe um elemento diferenciador único que, por ser impossível de replicar pelos competidores, deveria ser o elemento central do seu posicionamento.

Lisboa é a única capital Atlântica da Europa. A própria geografia pode e deve ser o elemento diferenciador da capital Portuguesa.

Para além das suas características geográficas, ao longo dos anos, a cidade foi acumulando características que a tornam potencialmente a verdadeira capital europeia dos Oceanos.

Assim vejamos.

Ao nível do turismo, Lisboa combina a beleza, a cultura e história de uma cidade milenar cosmopolita com a proximidade de praias de elevada qualidade, permitindo combinar o turismo citadino com o clássico, mas essencial, “sol e praia”, complementado com a crescente utilização do seu potencial de desportos náuticos como o surf, kite surf, mergulho, entre muitos outros. Se estrategicamente comunicado, dificilmente será possível superar estas características entre as demais cidades europeias. É verdade que o turismo em Lisboa tem vindo a crescer de forma sustentada, mas não podemos esquecer que existe ainda um enorme potencial de crescimento, já que recebemos metade dos turistas em relação a Barcelona, menos de metade que Madrid, e cerca de um quarto dos turistas que recebem cidades como Paris ou Berlim.

Ao nível da náutica de recreio investiu-se na criação de marinas nos últimos anos e as grandes regatas mundiais como a Volvo Ocean Race, The Tall Ships Race, America’s Cup, Routes des Princes, entre outras, passaram a vir a Lisboa e Cascais num investimento que certamente trará frutos no futuro, tanto nas vantagens competitivas relativas à qualidade de vida que a cidade pode proporcionar a quadros médios e altos internacionais, como no turismo inerente a esta atividade.

A temática do Mar também se encontra cada vez mais presente ao nível dos equipamentos e eventos da cidade. Para além da incontornável Expo 98 e de todos os monumentos ligados ao passado glorioso das descobertas nacionais, Lisboa tem sido palco de diversos eventos como o festival “Peixe em Lisboa” que explora a componente gastronómica relacionada com o Mar, durante vários anos o festival da cidade foi o “Festival dos Oceanos” e até os corvos emblema da cidade, estão claramente a ser substituídos pela imagem da sardinha. A cidade exibe ainda as mais bonitas embarcações da nossa história no Museu da Marinha, o acervo de um rei apaixonado pelo Mar, no Aquário Vasco da Gama e o Oceanário de Lisboa, considerado pelos seus visitantes como o melhor aquário da Europa. Considerado em primeiro lugar no ranking do Tripadvisor na cidade, o Oceanário é anualmente visitado por mais de 600mil turistas oriundos de mais de 150 países.

Em 2006 apenas 270 mil turistas desembarcaram de cruzeiros na nossa cidade. Em 2012 foram já 522 mil a utilizar a nossa geografia tirando proveito da nossa localização marítima para nos visitar.

Aparentemente tem vindo a aumentar o posicionamento da cidade e a sua relação com o mar no turismo com resultados positivos e crescimento consistente no número de turistas estrangeiros que a visitam ao longo dos anos sendo que em 2012 já foram mais de dois milhões e cem mil.

Também noutras vertentes a cidade tem vindo a ganhar massa crítica nos assuntos do mar.

Nas áreas do ensino e investigação as instituições estão a integrar, cada vez mais, o Mar nos seus curricula. Alguns exemplos são o Colégio Pedro Arrupe, que integra a temática do Mar no seu currículo desde o pré-escolar até ao secundário, a Faculdade de Ciências de Lisboa com o Centro de Oceanografia, o Instituto Hidrográfico, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica com a sua linha de investigação em assuntos do mar, o Centro de Engenharia e Tecnologia Naval do Instituto Superior Técnico, as pós-graduações desenvolvidas pela AESE e pelo Instituto superior de Ciências Sociais e Políticas, a Escola Náutica, a Fundação Calouste Gulbenkian com a “Gulbenkian Ocean Initiative”, entre muitos outros.

Também o Oceanário de Lisboa desenvolve a sua atividade na área da educação informal com um programa educativo que oferece mais de 40 produtos diferentes que ligam o Mar a temáticas tão diversas como a biologia, biodiversidade, literatura, matemática, economia, entre muitos. Todos os anos mais de 70 mil crianças e adultos participam nas atividades do programa educativo tendo o mesmo tocado mais de 600 mil pessoas desde a sua origem em 1999.

Muitas outras atividades institucionais e empresariais ligadas ao Mar se desenvolvem em Lisboa, como a Agência Europeiade Segurança Marítima, Eurocean, Porto de Lisboa e toda sua atividade, empresas ligadas às novas utilizações dos Oceanos como a Bioalvo, ligadas à pesca como a Docapesca e inúmeras ligadas à transformação e comercialização do pescado.

Se a perspetiva não for da cidade, mas sim da sua área metropolitana, com Setúbal, Cascais e muitas outras cidades fortemente ligadas ao Mar, o leque de atividades e características favoráveis aumenta substancialmente incluindo aquacultura, produção de sal, estaleiros de renome internacional, áreas marinhas protegidas e muitas outras com um nível de concentração territorial muito elevado.

Não conheço nenhum estudo comparativo, mas tenho dificuldade em encontrar na Europa um local onde o mar e as suas atividades estejam tão presentes e sejam tão diversificadas num território tão limitado como é o da área metropolitana de Lisboa.

Não existem dúvidas que Lisboa tem uma enorme ligação ao Mar.

Ninguém duvida também que essa ligação continuará a existir no futuro próximo e longínquo.

A questão que se coloca é se queremos e sabemos aproveitar a vantagem competitiva que essa ligação nos pode trazer a todos os níveis, integrando de forma estratégica todas as componentes existentes, utilizando mesmo conceitos urbanísticos como os desenvolvidos por Timothey Beatley (Blue Cities) e tornamos a Área Metropolitana de Lisboa a verdadeira capital dos Oceanos, plena de sinergias e massa crítica, incontornável como local ideal para desenvolver qualquer atividade ligada ao tema.

Se o conseguirmos acredito que a capital mundial dos Oceanos será mesmo em Portugal.

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