Competitividade Empresarial

Grupo Nabeiro - Internacionalização de sucesso

O meu tio começou por levar cafés verdes para torrefações espanholas, mas ao fim de alguns anos inverteu a marcha e começou a transformar aqui o café, a empacotar e a vender para Espanha. Nessa altura criaram-se algumas marcas, como a Cubana, que foi fabulosa, que depois vendeu e depois a Camelo, que ainda temos. A Delta aparece porque, por razões de saúde, tive necessidade de mudar de vida e embora estivesse num negócio de família, quis criar o meu próprio trabalho. Como aquilo que eu conhecia era o negócio dos cafés foi por aí que me encaminhei, embora com grandes dificuldades ao longo dos anos 60 e 70.

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Começámos por fazer cafés. Na altura era muito difícil porque tínhamos que entrar num mercado que estava ocupado e consignado a meia-dúzia de marcas. Havia marcas que ocupavam a Grande Lisboa e o Grande Porto e havia outras mais pequenas que se ocupavam do resto do país ou, como aquela em que eu trabalhava anteriormente, em que trabalhávamos para Espanha. Mas, como eu não queria fazer concorrência a esta empresa, tínhamos que sair para o mercado interno, que era a minha apetência. O crescimento foi facilitado pelo facto de eu não estar dependente dos resultados para viver, uma vez que ainda não tinha abandonado a empresa em que trabalhava e assim fomos crescendo. Os anos 60 e 70 foram muito difíceis e, mesmo depois do 25 de Abril, houve uma série de condicionantes.

Para quem nasceu nos anos 30 e 40, fazer um paralelo com os dias de hoje é comparar o dia com a noite. Mesmo nos anos 60, quando criei a empresa, trabalhar no interior do país era como trabalhar às escuras. Para funcionar e levar os outros a acreditarem em nós era preciso um rasgo de imaginação e de simpatia, que acabou por se tornar uma das minhas atitudes. São os outros que o dizem, mas eu também reconheço que tenho essa grande arte de saber estar com as pessoas e saber ser amigo foi uma grande vantagem.

Estive muitas vezes para voltar atrás na decisão porque em qualquer zona onde fôssemos ver se era possível vender o nosso produto, já lá estava outra marca e a que se vendia não era a nossa. Foi então que demos a volta ao contrário. Comecei a fabricar um produto muito pobrezinho, tão pobre como os tempos que se viviam na altura e que eu não queria fabricar. Comecei a trabalhar com umas cevadas torradas, com cafés com sucedâneos (que eram a cevada, o grão preto e a chicória), ou seja, apostámos numa área onde só havia duas ou três empresas que trabalhavam seriamente nesse setor mas que nem se aperceberam da minha entrada. É muito importante uma pessoa não se desviar daquilo que pretende e que, no caso, era o pequeno rendimento que a empresa ia dando diariamente. Sempre trabalhei para juntar e para que a empresa tivesse a solidez que deveria ter, que se converteu num fator muito importante para o sucesso da empresa.

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CM - E qual terá sido a sua característica que mais influenciou esse percurso?

RN - A minha maior audácia foi ter a capacidade de não ficar em casa, não me circunscrever a Campo Maior. Quando, nessa época, todos esperavam que o café chegasse de África, eu fui para Angola à procura do café. Isso deu-me um grande conhecimento sobre o mundo do café, que foi completado pelo conhecimento adquirido nos países europeus, onde existiam comunidades emigrantes de origem portuguesa. Assim, quando fui para África, fui para tentar não estar dependente nem dos exportadores, nem dos importadores que existiam na altura. Ia comprar café e cheguei mesmo a ter um barco pequenino. Depois do 25 de Abril foi-se o barco e foi-se algum do dinheiro do sinal do barco. Embora tendo sido maravilhoso, o 25 de Abril assustou muitas pessoas. Eu não só não me assustei como marchei para África e só de uma vez fiquei por seis meses. Após esse período voltei a Angola, aluguei um barco à Companhia Nacional de Navegação e carreguei café de Angola para cá, quase sem dinheiro devido às dificuldades de financiamento que existiam na época. Foi preciso muita força e muito querer para que a empresa se transformasse num pequeno negócio e muito trabalho para que crescesse até onde estamos hoje.

CM - Quais os métodos e processos que considera que foram fundamentais para o vosso crescimento, nomeadamente em termos de recursos humanos?

RN - Vou buscar as pessoas porque tenho um grande atrevimento, mas temos hoje uma formação académica dentro de casa que é muito importante. O meu filho tem uma boa formação, embora não tenha terminado o seu curso, e começou por trazer um colega dele do curso de engenharia, que continua cá há 31 anos. Esse foi o primeiro passo que demos, a que se seguiu a contratação de mais uns engenheiros.

Quando se fala de ligação às universidades, há dezenas de anos que temos ligações com o ensino. Temos uma boa relação com a Universidade de Évora, temos ligação com o Politécnico de Portalegre, temos boa ligação e bom trabalho com a Universidade Católica de Lisboa e, nesse campo, achamos que é necessário ter valores. Nesta casa há a minha experiência de luta e de querer, que é muito importante, mas o conhecimento também, a par dos bons trabalhadores e das pessoas ambiciosas.

Internacionalização

CM - A vocação exportadora sempre esteve presente ou há um momento em que se torna uma necessidade para o crescimento?

RN - Quando iniciei a atividade na empresa do meu tio já vendíamos café para Espanha. Pode-se afirmar que tivemos um embrião totalmente na exportação. Os espanhóis, com a guerra civil e a política franquista, tinham as fronteiras fechadas e havia grandes entraves à realização de importações e exportações. Como o entendimento entre o Franco e Salazar era enorme, quando era necessária a passagem de produtos para Portugal, as autoridades portuguesas facilitavam o atravessamento da fronteira e quando era necessário enviar produtos para Espanha, como era o caso do café vindo de Angola, as autoridades espanholas também facilitavam esses movimentos.

CM - O Grupo Nabeiro foi designado como parceiro para a revitalização e reabilitação da indústria do café em Angola. Como é que a Delta se tornou um parceiro de referência nesta área e nesse País?

RN - Nós estamos em Angola a sério! A Angonabeiro está lá desde 1995, há 17 anos. E em 1995 ninguém estava em Angola, estava tudo de pé atrás, e foram anos duríssimos em Angola, com a guerra civil. Portanto, penso que esse fator teve muita importância. Mas, com certeza que eles também vieram colher algumas informações em Portugal e uma das razões deve ser, de facto, a forma como desenvolvemos o nosso negócio. Esse projeto está a ser encaminhado para que os nossos parceiros locais possam estar preparados para a luta que vier, na medida que nós estamos a valorizar um produto e a economia local. Neste momento estamos a investir na nossa fábrica de descasque, para termos um descasque com alta tecnologia e elevado rendimento no tratamento do café após a colheita.

CM - A internacionalização passa pela saída do “mercado da saudade”, isto é, irem para além das comunidades portuguesas de emigrantes?

RN - Estamos em Moçambique, onde cedemos a nossa marca e a nossa representação, embora seja nosso interesse retomar a marca e desenvolver bastante o nosso trabalho ali. Estamos também a trabalhar indiretamente com Cabo Verde, mercado pequeno mas promissor. Olhamos para Marrocos, Magrebe e Europa Central... Ligada ao “mercado da saudade” temos uma representação nossa em França; abrimos agora no Luxemburgo e estamos no Canadá há muitos anos, com uma posição razoável.

CM - Têm em vista novas oportunidades de negócio? Noutros mercados-alvo?

Neste momento estamos com um trabalho muito importante em Espanha, em França, em Angola. Estamos a pensar seriamente em fazer esse trabalho com Moçambique, Luxemburgo ou na própria Bélgica. Neste momento, o ponto estratégico que está a coordenar toda aquela zona da Europa é a zona de Paris e a partir daí fazemos a cobertura dos mercados em que estamos presentes. Marrocos ainda está em estudo e com o Brasil temos já uma relação de parceria, para podermos fazer as coisas de uma forma mais ágil e dar um passo com um produto muito importante: as cápsulas.

CM - Quando surgem novos mercados abastecedores de matérias-primas, quais as implicações? Continua a produzir tudo em Portugal ou existe deslocalização das unidades de produção?

RN - Vejamos o nosso caso em Angola. Temos a fábrica que transforma o produto local, mas para os clientes que procuram um produto diferente, temos o Delta, que é produzido em Portugal e é exportado para Angola, onde é líder de mercado. No segmento doméstico temos também a liderança, com a marca local que é a Ginga e como o objetivo é abastecer os países envolventes, sempre que há feiras nesses países e em que nós participamos a convite do Governo Angolano, apresentamos apenas o Café Ginga.

Logística e Portos

CM - Qual a importância que atribui à área da logística? Têm um departamento específico dentro da empresa para tratar destas questões?

RN - A área da Logística nas empresas é muito importante especialmente em atividades como a aquisição, movimentação, armazenagem e entrega de produtos. Cada vez mais as Organizações apostam na área da Logística como um veículo de melhoria na eficiência do trabalho e uma mais-valia para reduzir custos desnecessários. Existe um Gabinete de Logística sedeado na Novadelta.

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CM - Na distribuição nacional, que transporte utilizam prioritariamente?

RN - Hoje damos muito trabalho a frotas externas, face ao crescimento do volume de trabalho. No entanto, o cliente essencial ainda é servido pela nossa frota. É a minha doença com a criação de postos de trabalho. Eu criei os transportes porque era necessário admitir algumas pessoas para fazer o serviço. E os próprios clientes preferem esperar e serem servidos pelos nossos motoristas do que serem servidos por empresas externas. Isto porque os nossos funcionários pegam em empilhadores, arrumam a mercadoria ao cliente e são capazes de fazer um favor aos clientes e cria-se quase que uma família.

CM - Na exportação, recorrem a operadores logísticos?

RN - Trabalhamos com vários. No caso de empresas do grupo utilizamos dois de forma regular. Nos restantes envios, cujo transporte é da responsabilidade dos nossos clientes/parceiros internacionais, eles escolhem quais os operadores a utilizar.

CM - Qual a importância das cadeias logísticas que envolvem o transporte marítimo nas vossas exportações, bem como nas importações?

RN - A importância é muito elevada, pois da sua fiabilidade depende, e em muito, o nível de serviço prestado, quer aos nossos clientes, quer aos nossos consumidores espalhados pelo mundo. É fundamental termos parceiros com quem podemos contar, qualquer que seja a situação, de forma a que, independentemente de onde se encontrem aqueles que confiam em nós e nos nossos produtos, possam usufruir do mesmo nível de serviço que encontrariam em Portugal.

CM - Utilizam os portos nacionais? E quais os factores de decisão na escolha dos portos e das cadeias logísticas?

RN - Sim, utilizamos portos nacionais. O critério de utilização tem mais a ver com as rotas, destinos e datas de saída dos navios, do que com quaisquer outros critérios, desde que cumpram os requisitos por nós especificados.

CM - Segundo as estatísticas que consultámos, o sector que mais cresce na Delta é o do café em cápsulas. Sabemos que têm um projeto de logística inversa muito interessante nesta área que envolve a devolução das cápsulas. Como conseguem a adesão dos consumidores a este projeto, uma vez que esse é sempre o factor crítico de sucesso neste tipo de projetos?

Há locais nos supermercados e em várias zonas para recolherem as cápsulas. Ainda ficarão muitas e muitas por recolher, mas estamos a tentar que este projeto seja bem-sucedido. O factor decisivo tem sido a proximidade. Quando nós começámos, depois de já haver marcas estabelecidas no mercado, não há dúvida nenhuma de que foi a proximidade que nos permitiu atingir o patamar em que nos encontramos atualmente. E agora, continua ser a proximidade que é decisiva, não só neste segmento, como em toda a nossa atividade comercial. Estamos muito próximos do consumidor, não só do final, mas também das pessoas que estão junto do consumidor final, o intermediário. E, de facto, o êxito só acontece quando as pessoas estão sempre disponíveis e à espera de conhecer as necessidades dos clientes para o servir da melhor maneira.

Responsabilidade Social

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CM - Sabemos que tem especial atenção, à responsabilidade social, substituindo em grande medida as instituições públicas. Porquê?

RN - Nasci na região de Campo Maior. Os meus pais eram trabalhadores do campo e chegámos a ser cinco filhos numa casinha com um quarto para todos e uma casinha de fora que fazia de cozinha e de tudo o mais. Nesse tempo, o bom trabalhador ainda ganhava e os outros iam sempre sobrando. Estes fatores não servem para chorar a dizer que se foi pobre, mas para afirmar que foi daqui que surgiu a minha formação social. Eu vi que os meus pais sofreram sempre muito e isso deu-me sempre uma grande vontade de ajudar os outros e partilhar aquilo que tinha, até porque a mim também me ajudaram. Quando comecei a trilhar um caminho e a ter algo mais do que aquilo que seria suficiente para mim, investia nas pessoas, investia no trabalho e investia na saúde. Recebemos muitos pedidos de ajuda para evitar o encerramento de instituições e, se podemos, ajudamos. São estas coisas que nos dão mais gozo e que fazem com que os olhos fiquem com mais brilho.

CM - Foi um dos rostos do projeto “Novas Oportunidades”. Como insere essa posição no âmbito da estratégia do grupo?

RN - Aceitei o convite porque ia dar a minha face a um projeto que dá mais valor às pessoas. Quem vive no Alentejo ou nas regiões do interior sabe como somos carentes. À minha porta, bate todos os dias muita gente, e quando pergunto as habilitações académicas, as pessoas dizem que têm o 6º ano, o 7º ano ou o 8º ano, mas que não está completo. Isto não deve ser assim. Por isso, quando me convidaram, aceitei porque pensei que iria prestar um bom serviço às pessoas e ao interior do país.

CM - Este ano é o 10.º aniversário da independência de Timor-Lorosae. O grupo Delta foi dos primeiros a estabelecer relações comerciais com Timor. Faz parte daquilo que é uma marca da empresa em termos de responsabilidade social?

RN - A minha relação com Timor começou com um amigo que lá trabalhava e que, uma noite, já muito tarde, me telefona, esquecendo-se da diferença horária, e me disse que era importante que comprássemos o café de Timor. Como uma amostra demorava muito tempo a chegar, resolvi ir a Timor para ver o café. Fui, e fui das primeiras pessoas a lá chegar. Um jornalista da Visão, na altura, escreveu “Eu pensei que era o primeiro, mas já lá estava o Rui Nabeiro ”. Foi uma jornada muito linda, maravilhosa. Aquelas crianças, aquele mundo. Sinto saudades. Até porque depois fui lá várias vezes e assisti a todo o processo que levou à independência. È algo que me toca cá fundo, porque libertei cafés, consegui dar esperança àquela gente, criar escolas, entre outras coisas. E dá muita esperança. Ainda hoje, já sem lá estar, há algumas empresas a quem compro o café, dando-lhe uma garantia de preço, que garante a sustentabilidade daquele grupo. E é um grupo que sei que trabalha em condições e que dá emprego a muita gente. E isto são páginas da vida de um homem difíceis de apagar. De lá não trouxe nada para mim. Levei e hoje estou a comprar dando uma segurança mínima. Se houver uma baixa de preços no mercado internacional, eu aguentaria o preço e se houver uma subida, acompanhamos essa subida. A recompensa são as pessoas. De forma que não há dúvida nenhuma de que valeu a pena.

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Comentários   

 
0 #1 Maria Teresa Laranjo 23-09-2012 14:58
Curiosidade em ler mais sobre o assunto
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