Geopolítica e Estratégia

A energia dos mares

Neste quadro, tenho o maior prazer em elencar um “mapa” - sumário, limitado ao espaço para o artigo – focado no potencial energético do leito e subsolo marinhos, bem como das componentes renováveis associadas às chamadas energias mar motrizes, biomassa marítima e eólico “offshore”.

2. RESERVAS E RECURSOS

É sabido que o leito e o subsolo marinhos são um oceano de desconhecimento…

Convém assim ter presente o quadro seguinte, onde se “advinha” o enorme potencial em descobrir recursos – nomeadamente minerais, onde pontifica o petróleo e o gás – em novas “províncias”/bacias, hoje, mal ou de todo desconhecidas.

Aliado à tecnologia – que continuamente “empurra” as fronteiras do até então inacessível e que diminui custos/aumenta a produtividade da recuperação de matérias-primas – é imenso o potencial em tornar recursos em reservas com interesse económico.

Basta ter presente que em apenas 20 anos – sobretudo na última década – o contributo da exploração de petróleo “offshore” na produção mundial já atinge os 10%, quando antes era negligenciável: “As conventional crude oil production holds relatively flat through 2040, demand growth will be net by newer sources. The biggest gains will come from global deep water production, which more than double, through 2040” (in “The outlook for Energy” Exxon Mobil, 2012).

3. RECURSOS FÓSSEIS NO SUBSOLO MARINHO

O desejo de poder descobrir petróleo e gás natural no “offshore” português faz parte dos nossos sonhos. Num país com uma fatura energética de cerca de 11 mil milhões de euros (2011), onde pontifica de forma esmagadora o petróleo e o gás, é natural que alimentemos essa esperança.

Esperança legitimada pelos extraordinários avanços da tecnologia de exploração em águas profundas, que na última década tem evoluído a um ritmo surpreendente.

Ninguém imaginaria há dez anos que hoje seria possível recuperar petróleo e gás, a custos comportáveis, em “lâminas de água” com mais de 2,5 km e prospetar mais 5 km no subsolo submarino.

Esperança pelo facto de sabermos que a estrutura geológica da nossa plataforma continental é “familiar” da do Golfo de Lawrence e da da Bacia de Jeanne d’Arc, no Canadá, de onde nos fomos separando há 200 milhões de anos: “we believe that increased synergy between reserach and industry groups on both sides of the aAtlantic will lead to greater drilling sucess on these conjugate margin” (in S. Kearsey & M. Enachescu, 2010).

Nesta região, do outro lado do Atlântico, foram recentemente descobertas importantes jazidas petrolíferas na Hibérnia e Terra Nova, com uma estrutura geológica - coluna geológica – com uma composição similar à observada aquando da perfuração do poço Lula-1, na Bacia de Sines pela empresa Pecten em 1985.

Na costa sul, desde logo a exploração de gás natural na Bacia de Cádiz, com uma provada continuidade geológica para o “offshore” algarvio, aponta para a pertinência em alimentarmos a esperança.

Ao todo temos hoje cinco empresas com trabalhos de prospeção em curso na nossa costa.

Naturalmente que para “merecermos” este potencial é necessário muito trabalho, muito investimento e uma Administração muito mais célere e pragmática para tornar atrativo o interesse pelo nosso “offshore”.

Ainda a propósito dos hidrocarbonetos, uma última nota para uma “dimensão do mar” – normalmente esquecida – que tem a ver com a relevância do transporte marítimo de petróleo e gás, resultante da concentração de zonas de produção, exportadoras para os grandes mercados da América do Norte, Europa e NW Asiático, em particular. O petróleo é a mercadoria que mais navega, sendo o nosso mar uma rota essencial na matriz de redistribuição de petróleo bruto e refinados, bem como de gás natural liquefeito.

4. FONTES RENOVÁVEIS DO E, NO, MAR

No atual estado de conhecimento, os mares encerram duas famílias de fontes renováveis com interesse energético:

  • O que poderemos chamar de fontes do mar, a que chamamos genericamente de mar motrizes;
  • Outras, da “família” dos ventos, algas/biomassa ou mesmo geotermia.

No primeiro grupo incluímos vários fenómenos que encerram um colossal potencial cinético, mais ou menos concentrado, onde sobressai:

  • A energia “contida” nas ondas;
  • A energia das correntes;
  • A energia resultante da sequência das marés;
  • O diferencial de temperatura nas massas de água, o gradiente térmico.

No segundo, pontifica o aproveitamento “dos ventos” que livremente sopram na superfície “lisa” dos oceanos – o chamado eólico “offshore” – que conhece na atualidade um importante crescimento.

O aproveitamento de algas, de toda a sorte, que poderíamos designar por “biomassa dos mares”, com um potencial múltiplo de aproveitamentos, mais tradicionais ou mais “revolucionários”.

Enfim, a recuperação do calor do solo e subsolo marinho, aproveitável também em condições muito específicas.

Podemos ainda especular no aproveitamento da “superfície” dos mares para aproveitamentos com recurso à energia solar térmica ou fotovoltaica.

Na realidade, as águas, ao serem um acumulador de calor – capacidade calorífica superior à atmosfera - funcionam como “reservatório” de calor, temperando as faixas costeiras, diminuindo amplitudes térmicas logo, contribuindo para mitigar consumos no arrefecimento/aquecimento.

De momento, por intervenção humana, o potencial energético renovável do mar, que surge na primeira linha de interesse e viabilidade económica é a “captação” do vento em aerogeradores fixados – direta ou indiretamente – aos fundos marinhos ou instalados em plataformas flutuantes.

Pelas condições favoráveis do vento que varre as massas de água, pela “abundância” de espaço, pelo “menor” escrutínio ambiental – comparado às instalações “onshore” – o eólico no mar ganha asas. São muitos milhares de MW, desde o Reino Unido à China, da Dinamarca ao Mediterrâneo, de Peniche ao Mar Vermelho.

O extraordinário desenvolvimento da tecnologia eólica – em fiabilidade/rendimento e também em escala, com geradores a chegarem aos 10 MW de potência instalada – permite olhar a orla costeira como um imenso manancial de geração de eletricidade.

As mar motrizes, com utilizações tradicionais em condições muito específicas – moinhos de maré para força motriz ou geração elétrica, energia das ondas, etc. – enfrentam um dinâmico desafio de I.D.&D. com vista ao apuramento de tecnologias que aproveitem, mesmo que uma ínfima parte da colossal energia contida nas águas em movimento, como há muito se generalizou em cursos de água do “onshore”.

Em toda esta ampla e variada família de “renováveis do mar”, Portugal reúne interessantes potenciais.

Mais, trata-se de tecnologias, na generalidade emergentes, que permitem termos uma palavra ativa na sua seleção e aproveitamento, retendo para a economia nacional parcelas da cadeia de valor em conhecimento, equipamentos e serviços. Neste domínio, é uma ambição mais realista do que recuperarmos protagonismo em tecnologias mais “maduras” e de enorme “escala unitária”, como as ligadas à prospeção, pesquisa e recuperação de hidrocarbonetos.

Adquirido é o facto de estar reservado um contributo às renováveis do e no mar, no próximo futuro, na satisfação das nossas necessidades em energia final nomeadamente sob a forma de eletricidade, mas não só.

Nestes domínios o recurso é incontestável, não se trata de uma (legítima) esperança, como nos combustíveis fósseis.

Uma vez mais, no mar e pelo mar adentro, podemos ir buscar uma decisiva ajuda para colmatar a nossa atual vulnerabilidade em fontes de energia e internalizar na economia apreciáveis componentes de valor.

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