Geopolítica e Estratégia

Lisboa, o mar como presença

A nossa história é feita de ausência em vez de presença. O mar serviu para nos levar fora de nós, alimentando as ilusões de um além-Portugal. A pergunta de Alberto Sampaio, em 1892, continua a ser a nossa: “De facto, que importava o progresso moral e industrial destas oitenta léguas de cinta litoral, se estava aberto o grande mundo, cheio de opulências nunca vistas? Embarcaram todos. A miragem das grandezas cegava os olhos à realidade”.

Agora, importa pensar o mar não como passagem, mas como presença. E esta presença começa em Lisboa, cidade que vê o rio suspender-se no meio das pontes, à espera de se encontrar com o oceano.

Para argumentar O mar como presença recorro a quatro pontos de entrada:

  • Território: A principal mudança estratégica no pensamento sobre Portugal passa pela capacidade de inverter grande parte da nossa história, firmando a presença, desde logo do ponto de vista territorial, num território que é também mar.
  • Conhecimento: A mudança só será possível se for acompanhada por uma valorização do conhecimento, alterando uma outra constante da nossa história, o afastamento da cultura escolar e científica.
  • Sociedade: O conhecimento define-se no espaço social, e não apenas no espaço das instituições especializadas de ensino e investigação. A ligação próxima entre conhecimento e sociedade é uma referência central para os dias de hoje.
  • Pessoas: Todos os estudos apontam para uma cada vez maior urbanização no século XXI. Por isso, é tão importante pensar as cidades e a vida das pessoas nas cidades. É este o Cabo que nos falta dobrar.

Parece estranho falar assim, materialmente, em época de globalização, na qual predominam as metáforas da fluidez, da desterritorialização ou da mobilidade. Mas esse é o equívoco que devemos combater. Sem uma base sólida de independência, alicerçada na valorização do território e do conhecimento, não teremos a capacidade de resposta, adaptada e inteligente, que os tempos actuais exigem.

A criação implica domínio do conhecimento e muita preparação. Do mesmo modo, a interdependência requer uma base de soberania sem a qual não há partilha, mas apenas submissão a lógicas alheias. Se não compreendermos este aparente paradoxo, continuaremos a alimentar os equívocos que fizeram os piores momentos da história de Portugal.

O mar como território

Os mapas que definem as geografias dos Estados quase nunca incluem o território-mar, aquele que se prolonga através das plataformas continentais. No caso português, as oitenta léguas de cinta litoral têm uma superfície de cerca de 90.000 km2. Mas a nossa plataforma continental já se estende por aproximadamente1.700.000 km2 (18 vezes mais) e, se as nossas pretensões forem satisfeitas, poderá mesmo chegar a um valor próximo dos 3.800.000 km2 (quarenta e duas vezes mais). O centro geodésico de Portugal passa de Vila de Rei para o meio do Atlântico.

Este novo desenho do mapa português é uma oportunidade para pensar o território como presença, abrindo uma fase da nossa história marcada pelo investimento na terra e no mar, no reconhecimento da importância dos recursos naturais e, sobretudo, no uso da ciência e da tecnologia como elementos decisivos para um desenvolvimento sustentável.

A cidade de Lisboa é naturalmente a chave desta nova geografia que integra, também, uma dimensão de soberania e uma referência identitária sobre o nosso lugar no mundo.

A universidade do mar

Nas últimas décadas, Portugal desenvolveu um conjunto importante de instituições e de grupos destinados ao conhecimento do mar. Através das universidades e dos seus centros de investigação tem sido possível trabalhar com cientistas de grande nível e realizar estudos com larga participação internacional.

O nosso maior problema é a falta de cooperação. Continuamos, também na investigação, fechados dentro das nossas instituições, incapazes de agir em rede e de promover uma cultura de colaboração.

No caso de Lisboa é clara a necessidade de inventar uma “universidade do mar”, que não deve ser realidade física, mas espaço de ligações e de trabalho conjunto, associando grupos e entidades diversas, em particular as que têm vasto património histórico e de conhecimento nesta área, como a Marinha Portuguesa.

O conhecimento na cidade

Portugal fez avanços importantes do ponto de vista cultural e científico, iniciando, há quarenta anos, uma viragem histórica de enorme significado. Simultaneamente, enraizou-se na sociedade portuguesa a consciência de que é necessário adoptar novas formas de organização social e de desenvolvimento económico, fortemente dependentes da incorporação de ciência e tecnologia.

Mas falta-nos uma cultura de transposição do conhecimento para a “cidade”, de valorização do conhecimento do ponto de vista social e económico. Neste ponto reside o principal factor de mudança da sociedade portuguesa, o desafio maior que temos pela frente, seja na renovação empresarial, seja na vida do dia-a-dia (habitação, mobilidade, energia, etc.).

O mar, com as suas possibilidades e recursos, pode ser um espaço de soluções, sobretudo para o tão necessário “armistício com o mundo” (Michel Serres).

Lisboa, cidade-mar

No dia mais difícil de Lisboa, 1 de Novembro de 1755, o mar invadiu a terra e abalou a consciência europeia. Jean-Jacques Rousseau avisou, em carta a Voltaire, que a extensão do desastre se deveu, também, à forma como a cidade estava organizada, com milhares de casas de seis e sete andares, pois a natureza não tinha de se submeter às leis humanas.

Lugares de permanente reinvenção, as cidades são hoje marcadas por preocupações com o ambiente, a sustentabilidade e a convivialidade. Soluções urbanas inovadoras vão surgindo na organização do espaço público e da vida social, na construção dos edifícios ou nas áreas da cultura, da educação ou da saúde.

Nos últimos anos, Lisboa tem sabido juntar-se ao Tejo, que é a sua razão de ser histórica e geográfica, abrindo-se ao conhecimento e atraindo pessoas de muitos mundos. Cidade-mar. Univer-cidade. Cidade Erasmus. Pressente-se a emergência de uma cidade diferente, feita não das utopias grandiosas do passado, mas da inventividade das pessoas que mobilizam a inteligência e o conhecimento.

Volto ao princípio.

O mar português serviu-nos para partir, foi o lugar da nossa ausência. A citação do Padre António Vieira é tragicamente bela: “Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra. Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo”.

Hoje, o mar há-de ser presença, a começar pelo mar de Lisboa.

Portugal como presença era projecto irrealizável num tempo em que vivíamos de costas voltadas para o conhecimento, para a escola e para a ciência. Agora, é um caminho possível, imprescindível mesmo, para dar futuro a um país que, por vezes, parece ter apenas passado.

Em Lisboa, acaba a terra e começa o mar.

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