Geopolítica e Estratégia

Relançar o futuro

Solicitado para escrever algo sobre o sector portuário e os transportes marítimos, no contexto da profunda crise que afecta não só o nosso pais como toda a Europa, aceitei por reconhecer que reúno condições para o efeito, não obstante ter saído da vida activa há já largos anos. Por um lado, persistem ainda em mim, bem vivas, memórias das importantes dinâmicas vividas naquele sector no período 1996-1999. Por outro, sinto que ainda acompanho com lucidez, e inerentes preocupações, os complexos desafios que se colocam a Portugal no sector em análise, ou seja, no cluster do mar.

Não quero deixar de registar, nestas considerações prévias, que a adequada exploração das nossas riquezas naturais, no quadro das indústrias do mar, é outro desafio imperativo que se coloca a uma nova geração de empreendedores à altura das exigências do país. Trata-se de matéria que, naturalmente, outros desenvolverão com conhecimento de causa. É ao sector dos portos e do transporte marítimo que dedicarei algumas reflexões específicas.

Permita-se-me que invoque, desde já, os grandes desafios implícitos no Livro Branco sobre Política Marítimo-Portuária, apresentado publicamente em 1997, os quais continuam válidos no muito que há ainda por fazer.

Voltar economicamente Portugal para o mar, aproveitando as suas potencialidades naturais e, simultaneamente, fazer acompanhar este imperativo nacional de uma eficaz dinâmica de desenvolvimento regional e de ordenamento do território, na qual devem assumir um papel de destaque as estruturas logísticas, as acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, e a prática sustentada da inter-modalidade, eis um conjunto de condições que permitirão encarar o futuro com confiança e saudável espírito de competitividade.

O ponto de partida para esta dinâmica é o reconhecimento do papel estratégico que devem ter os portos e o tráfego marítimo no desenvolvimento sustentado, competitividade e internacionalização de economia portuguesa, no âmbito de um esforço colectivo conjugado para superar a crise que nos assola.

Este conjunto de objectivos corresponde a uma transformação da fachada marítima portuguesa na primeira frente atlântica da Europa, de que o primeiro passo emblemático foi a arrojada estratégia da construção, em Sines, do mais importante porto hub do Atlântico e do Mediterrâneo Ocidental.

Há já largos anos houve uma aposta comunitária no desenvolvimento do Short Sea Shipping europeu, ou seja, nas soluções de cariz marítimo e multimodal para o tráfego de mercadorias intra-europeu, em alternativa ao uso dominante do transporte rodoviário que congestiona o centro da Europa,

Não foi possível até à data, infelizmente, fazer emergir a vocação de Portugal para integrar o Short Sea Shipping europeu, não obstante a nossa relevante quota de tráfego com a Europa, no comércio externo, e a situação geográfica do país como fachada ocidental atlântica da Europa.

Neste quadro, deve prosseguir-se o objectivo de, no futuro, integrar o sistema portuário português nas funções de acesso directo às grandes rotas intercontinentais, funcionando como centro de concentração e distribuição de nível europeu - o que passa pela escolha, por parte de grandes operadores mundiais, de alguns portos da costa portuguesa como nós das rotas do transporte marítimo de contentores.

A criação do terminal de águas profundas de Sines, feita em parceria com um grande operador mundial, poderá ocasionar uma mudança global de escala e de posicionamento concorrencial do ocidente peninsular na fileira do transporte intercontinental, tornando-se num factor adicional da atractividade do país para os investidores internacionais. O facto de tal objectivo não se ter ainda concretizado deve-se ao facto de o Estado Português não ter cumprido o compromisso assumido numa side-letter oficial - anexa ao contrato firmado com a PSA para a concessão do referido terminal -, de assegurar eficazes acessibilidades rodo-ferroviárias entre este terminal e o hinterland espanhol, e daí, por extensão, à restante Europa. Acresce que esse compromisso foi calendarizado e programado em desenvolvimentos concretos. Dispenso-me de, sobre esta matéria, fazer mais comentários...

O alargamento do Canal do Panamá, a concretizar proximamente, poderá colocar Portugal na confluência das grandes rotas intercontinentais oriundas do Extremo Oriente, das Américas e de África, permitindo conferir a alguns dos nossos portos, e ao de Sines em especial, uma centralidade no mundo económico global de que somos parte integrante. Para isso, teremos de ser pró-activos na procura de parceiros estratégicos internacionais, designadamente no âmbito dos grandes armadores mundiais, e na criação de cadeias logísticas e intermodais que nos garantam níveis de acessibilidade rápida à Europa.

O pleno desenvolvimento dos portos portugueses, e a melhoria sustentada da sua competitividade, sendo factores indispensáveis à dinamização do sector dos transportes marítimos e das indústrias marítimas e logísticas, são a base de novas oportunidades no caminho da internacionalização e da conquista de novos nichos de mercado.

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