Editorial Agosto-Setembro de 2013

Da minha terra vê-se o Mar. E depois?

“Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.”, Vergílio Ferreira

Qual é a minha terra? Quis a sina, e as escolhas de vida, que fosse tendo o privilégio de uma relação de pertença com várias terras e todas com horizontes largos, com o Mar a prolongar e a potenciar o sonho e a vivência: Maputo, Lisboa e Porto, até mesmo o meu Alentejo profundo que desliza pelas searas para as praias a sul e para as rotas marítimas de Sines.

Ao longo dos meus quase quarenta anos de lisboeta vivi, com maior ou menor intensidade, as boas e más histórias da relação entre a Cidade e o Rio: histórias dos velhos do Restelo, da derrota do POZOR, da conquista do Parque das Nações, do novo-riquismo de alguns com ânsia de Lisboa cidade-postal transformada em mega-esplanada junto ao Tejo, do bom senso de outros que equilibram estética com vida real.

Mas tudo mudou de escala. Portugal deixou de estar “orgulhosamente só”, passando primeiro a ser europeu e depois euro-atlântico. Lisboa deixou de ser a capital de um jardim à beira-mar plantado e passou a ser a única capital atlântica da União Europeia. O Tejo deixou de ser apenas o rio de faluas e cacilheiros e de saudosas partidas da Torre de Belém e passou a ser a porta alfacinha do nosso Atlântico.

Lisboa quer voltar a ser capital de um império, mas desta feita de um império maior, feito de mares e oceanos.

Pensar Lisboa na sua capitalidade plena de um País que ultrapassa a periferia e assume a sua centralidade euro-atlântica não é matéria fácil. Mas achamos que após um ano de edição a Cluster do Mar já tem maturidade suficiente para começar a abordar este tema e colocar perguntas a gente que deixou de pensar a cidade à escala do quintal e desenvolve estratégias para uma Lisboa global.

Lisboa: lazer ou emprego? Perifericidade ou centralidade euro-atlântica? Como incentivar e tornar mais útil a sua relação com o Mar? Que projetos nos domínios social, económico e territorial? Lisboa é apenas passeio à beira-rio? Que economia do Mar? Que outras atividades económicas? Que oportunidades de negócio? Qual o papel da ciência e do conhecimento?

A Câmara Municipal de Lisboa tem pela primeira vez uma equipa de governação que explicitamente faz da relação com o Mar um dos pilares da estratégia de desenvolvimento da cidade.

António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tem uma visão clara, simultaneamente arrojada e inclusiva, e expõe a estratégia do município na rota de afirmação de Lisboa como Capital Europeia do Atlântico e como Centro de Inovação, Investigação e de Conhecimento do Mar, identificando como preponderante o projeto Campus do Mar.

Manuel Salgado, Vice-Presidente, coloca a experiência e saber da longa carreira como um dos melhores arquitetos e urbanistas portugueses ao serviço de Lisboa, pensando a cidade à beira-rio e utilizando o ordenamento do território na procura de equilíbrio entre a estética urbana e a economia da cidade.

A Vereadora Graça Fonseca fala de uma economia lisboeta que também é marítima, do ecossistema empreendedor e da investigação e desenvolvimento marinhos, numa ótica de Lisboa como capital económica.

António Sampaio da Nóvoa, ex-Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, teve um papel decisivo, num País marcado por uma tradição de guerras de capelinhas, em conseguir agregar sinergias que permitiram fundir duas universidades na nova Universidade de Lisboa com dimensão para ser uma das maiores da Europa. Muito nos honra ter um autor com este perfil de humanista e de pensador universalista.

Para além da visão de estratégia e política temos outros olhares: ciência, investigação, estratégia, turismo, indústria naval, transportes e logística.

O Porto de Lisboa e respetivas evoluções também são analisados em vários artigos.

Carrilho da Graça, um dos mais reputados arquitetos portugueses, descreve o projeto da sua autoria do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa, em Santa Apolónia, que representa um equilíbrio harmonioso entre funcionalidade, estética e integração urbanística. Este projeto cuja construção já foi posta a concurso, é mais um passo na concretização de um processo iniciado em 2008 que visa garantir capacidade de crescimento num segmento mais produtivo do Porto de Lisboa, o mercado dos cruzeiros, e simultaneamente fomentar a integração com a cidade favorecendo o turismo e o comércio local.

António Mota, Presidente do Grupo Mota-Engil, faz uma apreciação profunda do porto no segmento das mercadorias e analisa as suas perspetivas de evolução, nomeadamente a estratégia anunciada pelo Governo de construção de um novo Terminal de Contentores na Trafaria e a eliminação, faseada, da movimentação de cargas na margem norte.

Este artigo é particularmente oportuno no momento em que as dúvidas entre os especialistas do sector se avolumam acerca do projeto e o Governo oscila entre a propaganda e a opacidade.

O recente anúncio de divulgação de relatórios técnicos que suportam o projeto foi até agora apenas uma operação de relações públicas com aspetos de mediatismo ao nível da imaginação à laia de Júlio Verne como uma ilha artificial no mar da Palha como alternativa à opção Trafaria. O que continua por fazer é um debate sério sobre a vocação do porto comercial de Lisboa, enquanto elemento estruturante da cidade, e a complementaridade entre a vocação liderante de uma cidade capital e os portos vizinhos (numa visão de economia global) de Setúbal e Sines.

Sobre Lisboa, na sua capitalidade marítima, muitas áreas ficam por tratar, desde a cultura aos serviços, mas lançamos agora este primeiro debate, em que a pergunta não é sobre o ser mas sim como fazer “Lisboa, Capital do Mar”.

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