Estudo de Caso

Secil: Novo Paradigma Estratégico – O Mar que nos expande

A Europa jaz, posta nos cotovelos

De Oriente a Ocidente jaz, fitando

(…)

O rosto com que fita é Portugal

                                                           In Mensagem, Fernando Pessoa

A Secil em Portugal

A posição ímpar de Portugal face aos principais eixos marítimos atlânticos e de ligação ao Mediterrâneo desde sempre conferiu ao nosso território vantagens competitivas únicas à Economia do Mar.

Considerando hoje a próxima entrada em serviço da ampliação do canal do Panamá, a costa portuguesa surge como a primeira frente terrestre de todo o espaço europeu, com características geográficas, climáticas e geoestratégicas que tornam este território especialmente vocacionado para o acolhimento de actividades logísticas e de rotação multimodal de mercadorias. E assim também para a exportação.

Neste contexto, Portugal não fica mais no fim da Europa, mas sim no seu princípio, não na periferia mas directamente no eixo de rotação entre a Europa e as Américas, entre o Norte e o Sul. Na posição ideal, portanto.

No esteio de uma dedicação secular à actividade marítima, ao comércio costeiro e à pescaria, muitas cidades de Portugal cresceram debruçadas sobre o mar. Setúbal, já desde o primeiro milénio, é uma delas.

Há acervo histórico substancial de robusta actividade marítimo-portuária na cidade da Foz do Sado, desde a época romana. No Século XVI, já soldados do Forte do Outão, na Serra da Arrábida, comerciavam mós de boa pedra calcária para os Moinhos do Guadalquivir, a partir das pedreiras adjacentes ao forte do Outão, através do então chamado ”Porto das Mós”. (1)

Desde o Séc. XVIII há registo histórico de extracção regular de pedra para construção civil em inúmeras pedreiras da Serra da Arrábida, de onde assoma, entre outras, a famosa Brecha da Arrábida. Daí ter-se instalado, a partir de 1904, uma unidade de produção de cimento Portland de calcário, que deu origem, em 1930, à actual Secil – Companhia Geral de Cal e Cimento SA.

Esta Empresa beneficiou, desde a sua fundação, de condições geológicas favoráveis para a sua operação – existência de excelentes e abundantes reservas de marga e calcário – mas também de uma localização portuária muito favorável, com a construção de um cais adjacente à fábrica. Este porto sempre proporcionou vantagens de transporte competitivas para a expedição do cimento produzido na fábrica, cujas primeiras encomendas se destinaram precisamente à construção do Porto de Setúbal.

A Secil surge assim desde o início ligada à actividade marítimo-portuária, sobretudo na região de Setúbal.

Ao longo de décadas, esta conexão marítima foi sendo aprimorada e desenvolvida, sobretudo através de uma intensa navegação de cabotagem de clínquer e cimento entre o Cais do Outão e os entrepostos fabris, marítimo-fluvais de Lisboa (Doca do Poço do Bispo) e do Porto (Cais da Rua do Ouro), e posteriormente, com os actuais entrepostos marítimos de Aveiro, Leixões e Viana do Castelo.

A Secil utiliza há décadas os seus próprios navios, como o “Secil Grande”, o “Secil Novo” ou o seu actual Roaz, destinado exclusivamente ao transporte a granel de cimento entre a Fábrica Secil-Outão e os Entrepostos Marítimos do norte do País. Também deste porto saíram durante quase meio século navios de cimento destinados à Madeira e aos Açores. A actividade exportadora encetou-se na década de 1960.

A posição Secil em 2003

A posição da Secil, em 2003, em termos de comércio marítimo era de importadora líquida de mercadorias, visto descarregar largos milhares de toneladas de petcoke, um combustível fóssil importado derivado de petróleo, para abastecer todas as suas fábricas em Portugal e exportar apenas alguns milhares de toneladas de cimento ou clínquer a partir do seu cais privativo do Outão e do porto de Setúbal. O mais elevado volume de mercadorias transportado por via marítima consistia no transporte efectuado ao longo da costa portuguesa, para Aveiro, Leixões e Viana do Castelo para abastecer a rede nacional de entrepostos comerciais Secil espalhados pelo Norte do país, o mais expressivo TMCD nacional.

Eixos de Expansão

A partir da internacionalização da empresa, com investimentos em instalações fabris cimenteiras efectuadas no início dos anos 2000 na Tunísia, Líbano e Angola, a Secil encetou um processo estrutural de alteração do seu paradigma de actuação. Antecipou-se uma expectável redução do volume de negócios no mercado nacional, resultante do atingimento de patamares de desenvolvimento mais aproximados aos dos nossos congéneres europeus, que, projectados na escala do nosso mercado interno, atinge valores de cerca de 3,5 milhões de toneladas/ano, sensivelmente menos de metade da capacidade industrial instalada no nosso país.

Em função desta premissa, a solução era expandir o mercado destas fábricas através da internacionalização da actividade mas sobretudo da exportação de parte da produção nacional, naturalmente com recurso intensivo ao transporte marítimo.

Para tanto, a Secil teve que adaptar a sua estrutura interna, tanto os recursos humanos, como os equipamentos e processos produtivos ao desafio da internacionalização e da exportação, melhorando os seus tempos de resposta na produção de matéria-prima, na capacidade de stockagem e carregamento de navios e na optimização dos fluxos logísticos entre as suas unidades produtivas, de forma a libertar a capacidade produtiva da Fábrica Secil Outão, servida directamente por uma instalação portuária relevante.

Uma vez que todas as unidades internacionais do grupo se encontram em orlas marítimas no Atlântico e no Mediterrâneo e com acesso portuário quase imediato, o transporte de cargas de clínquer e cimento para abastecimento intra-empresa tornou-se uma constante.

A orla marítima da África Ocidental e da América foram os mercados prioritariamente abastecidos pela Secil. Em 2005 foi iniciada a operação comercial de um entreposto situado na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o qual também é abastecido por via marítima a partir de Portugal. 

A Secil em 2012

Em 2012, a Secil assume uma posição claramente exportadora, alcançando um volume superior a 1,3 milhões de toneladas de cimento exportadas a partir do Porto de Setúbal, a que acresce o volume da navegação de cabotagem para o norte e de curta distância para a Região Autónoma da Madeira.

A Secil é, neste momento, um dos principais carregadores nacionais, ocupando uma posição de crescente destaque no Porto de Setúbal, no qual é responsável por 27,8% do seu volume de tráfego de mercadorias, ocupando portanto, um destacado primeiro lugar.

Paralelamente, a importação de combustíveis fósseis diminuiu substancialmente devido aos progressos registados no processo de co-incineração de resíduos, o qual permite aproveitar, com mais valia económica, ambiental e social recursos energéticos endógenos, como a biomassa vegetal e animal, os chips de pneus usados ou o CDR (Combustível Derivado de Resíduos, tanto industriais como até urbanos).

Esta alteração do paradigma de funcionamento da Secil, de uma empresa nacional a produzir quase exclusivamente para o mercado interno para uma empresa multinacional e pluricontinental fortemente orientada para a exportação obriga a uma profunda mudança da cultura organizacional da Empresa, com um maior foco nas necessidades dos clientes e com mais atenção às exigências de sustentabilidade. A complexidade logística acrescida que resultou de um crescimento 1,144 milhões de toneladas (+449%) de exportações em 10 anos teve de ser controlada, mas não sem custos. Confrontada com uma concorrência internacional de países com bases de custo muito reduzidas, a competitividade dos produtos portugueses da Secil é condicionado pelos custos da operação portuária.

A competitividade internacional

A Secil possui actualmente instalações na Tunísia, Líbano, Angola, Brasil e Cabo Verde, todas elas ligadas a operação portuária, pelo que é crucial que todo este sector seja rapidamente modernizado e ganhe acrescida eficiência.

Ao esforço que a Empresa efectuou para, internamente, se voltar para o exterior, fornecer novos mercados em condições de competitividade internacional e ao elevado investimento na melhoria das condições do cais do Outão para acolher navios de 30.000 toneladas que permitam carregamentos transatlânticos, deveria corresponder um igual esforço modernizador de todo o contexto legal e institucional do sector marítimo portuário:

  • uma maior liberalização e flexibilização das regras de operação portuária;
  • uma profunda alteração da legislação que rege o trabalho portuário (cuja recente alteração legislativa consistiu apenas num passo timidamente positivo);
  • a colocação das infra-estruturas portuárias verdadeiramente ao serviço da economia nacional exportadora, diminuindo substancialmente a factura portuária, agilizando prazos e mitigando os efeitos retardadores da múltipla legislação reguladora, isto é, aliviando de toda a forma os chamados custos de contexto que aprisionam o dinamismo das exportações nacionais.
  • Não é compreensível que o sistema de taxas portuárias resulte logo em significativos lucros para as administrações portuárias em detrimento da competitividade das exportações portuguesas. Os ganhos excessivos dos portos, em particular as taxas sobre as mercadorias, são parte significativa da factura portuária. Isentar as exportações desta taxa é um primeiro passo imprescindível. Os portos devem ser parte da solução e não do problema.

A Secil é uma empresa industrial portuguesa que está a reinventar-se. Logrou efectuar com sucesso, nos últimos, anos uma profunda mudança na sua matriz organizacional, orientando-se para o comércio global pelo recurso intensivo ao transporte marítimo defendendo o emprego e o valor acrescentado nacional, através das exportações.

Os portos nacionais, e o acesso ao transporte marítimo competitivo são um factor crítico de sucesso. Em 2003, menos de 8% da produção nacional Secil foi exportada. Em 2012, mais de metade da produção nacional foi dirigida a um mercado de exportação, expedida pelo mar.

Sem competitividade não haverá investimento, sem investimento não haverá crescimento. Os portos nacionais são factores críticos de sucesso ou insucesso na expansão da economia nacional. Importa que todo o sector marítimo-portuário acompanhe esta mudança estrutural de muitas das melhores empresas portuguesas, contribuindo activamente, com a sua própria mudança, para um maior dinamismo do sector exportador.

(1)Setúbal – O Porto e a Comunidade Fluvial e Marítima, Doutor Jorge Fonseca, Ed. Colibri 2012

 

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